sábado, 15 de novembro de 2014

A Procissão do Espírito

No descanso de vigília
Imiscuem-se os sonhos
Em pinturas perdidas
De uma civilização
Submersa no pó
De ouro em arco


Minh'alma dispersa
No sono matutino
Soturna desvanece
na vaga noite insípida
De uma aterradora incógnita
E douradura e dolente descida

Lá, decresce a via crúcis
ponderada alma que se extravia
Em agoras, na fabulosa cidade
De vazias muralhas
E indulgências cautelosas

Que as pernas em chagas
Suporte a descida
Onde as trombetas dos anjos
Não penetram o abismo

Que o corpo lasso
Triste, contingente e seco
Devore a alma
Em fragmentos inconstituíveis
E que ao despertar
Ainda o torpe e rude pensar

Não me tenha por aquilo
Que fui nem pelo que serei
E encerre a última trama
Destes loureiros laços remotos.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Razão e arte: uma abordagem sobre o papel da arte na educação.



Dentre as inúmeras teorias e propostas pedagógicas, assim como os inúmeros debates sobre a educação em geral, talvez possamos assentir categoricamente, e com maior grau de certeza, que a educação ou sistema de ensino constitui o espaço na qual a razão, como instrumento de formação, tem papel predominante, e que outras formas de educar, como a arte, por exemplo, estariam relegadas a um plano secundário quando não inexistentes. Partindo desse pressuposto de que a razão é preponderante no ensino, o movimento a seguir é delimitar o significado de razão e suas implicações na esfera do conhecimento como um todo, e também mapear, a partir da filosofia de Nietzsche, o caminho percorrido no qual a arte se tornou uma manifestação secundária em relação ao uso da razão.

Quando falamos sobre razão na nossa vida cotidiana, surgem os significados mais diversos que engloba a moral, o convencimento ou a verdade, o “bom juízo” ou, em um significado mais formal, o uso da lógica para atingir determinados fins ou resultados. Por isso, é necessária uma definição prévia e abrangente da razão afim de melhor delimitar a sua natureza. O filósofo Olavo de Carvalho, no artigo Jesus e a pomba de Stalin, do jornal O globo, nos dá uma definição mais sucinta e não menos abrangente, da razão:

Razão é o senso da unidade do real, que se traduz na busca da coesão entre experiência e memória, percepções e pensamentos, atos e palavras etc. A capacidade lógica é uma expressão parcial e limitada desse senso. Também são expressões dele o senso estético e o senso ético: o primeiro anseia pela unidade das formas sensíveis, o segundo pela unidade entre saber e agir. Tudo isso é razão. (2013, p.355).

Desse modo, a razão é definida como uma instância que coordena atos e palavras, percepções e pensamentos, experiência e memória, ou seja, a noção em geral de que as atitudes devem estar de acordo com conhecimentos adquiridos, e que só o saber pode orientar o agir. É dessa noção que se subentende que na sua estrutura reside um valor moral, pois a coesão entre atos e palavras só pode está relacionado intimamente à questão da verdade e da mentira, daquilo que se diz como expressão verdadeira das atitudes, e do agir como expressão do verdadeiro conhecimento, o do saber “verdadeiro e bom”. Assim, denomina-se bom àquele que age segundo o paradigma supracitado, daí que emerge da coesão do conhecimento racional a sua natureza moral.

É exatamente sobre a questão do conhecimento, da verdade e da ciência, que Nietzsche vai tecer uma dura crítica, ou seja, o que interessa para Nietzsche “é realizar uma crítica radical do conhecimento racional tal como existe em Sócrates e Platão”. (Machado, 1999, p. 6). A partir daí que Nietzsche irá atacar a ciência como verdade, como valor superior com a qual se atinge via razão, e denunciar a relação entre ciência e moral, isto é, de como a moral atribui valor ao conhecimento racional, e propondo a arte como a uma manifestação superior, um modelo alternativo a racionalidade e que afirma a vida, ou nas palavras de Roberto Machado, no seu livro Nietzsche e a verdade:

...o que faz Nietzsche é avaliar o conhecimento racional e a pretensão de verdade por meio de dois fenômenos culturais profundamente heterogêneos - um considerado positivo e o outro negativo (...) A arte expressa uma superabundância de forças: remete aos instintos fundamentais, à vontade apreciativa de potência. A moral atesta uma deficiência de forças: remete a instintos secundários, mais fracos à vontade depreciativa de potência. (1999, p.10).

A arte então expressa um valor superior à razão, ela manifesta uma superabundância de forças, enquanto que a moral enfraquece, adoece a vontade instintiva, originária e primordial. Mas por que a razão ou o conhecimento racional enfraquece as forças vitais do homem?  Por que a razão se configura como uma diminuição das faculdades instintivas, e, portanto, de tudo quanto afirma e fortalece a vida? Nietzsche vai justamente contrapor o instinto de conhecimento com o instinto como natureza. No capítulo Arte e instinto de conhecimento, Roberto Machado expõe o direcionamento da crítica de Nietzsche ao instinto de conhecimento:

O que Nietzsche pretende então é ressaltar que o conhecimento não faz parte da natureza humana, ou melhor, não está no mesmo nível que os instintos e que não é possível dizer, por exemplo, como Aristóteles no início da Metafísica, que todos os homens desejariam naturalmente conhecer. O conhecimento não é um instinto do homem, quer dizer, não é da mesma natureza que os instintos. O conhecimento foi produzido, o conhecimento foi inventado... (1999, p. 35-36).

O conhecimento, portanto, encontra seu campo fértil, germinante, no homem, na produção que ele lhe confere e que não pode ser “o valor principal do homem, porque os instintos são mais fundamentais que o conhecimento” (1999, p.36). Porém, é no âmbito das relações sociais, políticas e morais que o instinto de conhecimento floresce. Nele os juízos, as virtudes, a verdade como verdade e a mentira como mentira, segundo Nietzsche, são necessárias para vida gregária, assim como a segurança, a paz e a lógica etc. Na Genealogia da Moral Nietzsche aborda a questão da moral como um conjunto de normas, crenças ou virtudes historicamente instituídas a partir de diferentes camadas sociais, uma das quais está o “nobre” ou o “poderoso”, que estabelece os seus valores a partir de um confronto com aqueles considerados “inferiores”:

(...) O juízo “bom” não provém daqueles aos quais se fez o “bem”! Foram os “bons” mesmos, isto é, os nobres, os poderosos, superiores em posição e pensamento, que sentiram e estabeleceram a si e a seus atos como bons, ou seja, de primeira ordem, em oposição a tudo que era baixo, de pensamento baixo, e vulgar e plebeu. (2009, p.16).

Desse modo, os aspectos que regem a vida social não são verdades, mas convicções, crenças impostas “com o objetivo de tornar a vida social possível” ou “uma ficção necessária ao homem” (1999, p.38). Contudo, ainda na Genealogia da Moral Nietzsche estabelece uma distinção entre a moral do nobre e a moral escrava, isto é, a moral que tenta instituir seus valores como universais, como a verdade não como crença necessária historicamente e socialmente, mas como essência, saber supremo sob o qual todos devem subordinar-se.

Enquanto a moral nobre nasce de um sim, negando o outro apenas para afirma a sua existência, a moral escrava parte do não, da negação da vida como ato criador (2009, p.26). É nessa relação entre conhecimento e moral que Nietzsche vai propor uma metafísica do artista, estudando os dois instintos estéticos da natureza – o apolíneo e o dionisíaco – que estão na base da arte trágica. (1999, p.10). A proposta de Nietzsche era a de unir a aparência, a beleza representada por Apolo, à essência da manifestação dionisíaca, isto é, da natureza desvelada, da vida em todo seu horror e absurdo existencial.

É por meio da união desses dois polos antagônicos que a arte cumpre seu papel fundamental: a de fomentar a superabundância de forças e possibilitar um verdadeiro “efeito terapêutico” contra as forças que decalcam a vida. A finalidade da tragédia, para Nietzsche, é a de “produzir alegria” (1999, p.25). A arte, nesse caso, está mais vinculada aos instintos, à manutenção de uma vontade saudável, do que uma metafísica racional, que despreza os instintos elevando a razão como paradigma privilegiado da expressão do saber.
Daí a oposição de Nietzsche ao pensamento racional, o qual julga a produção artística mediante seu parâmetro. No capítulo Metafísica do artista e metafísica racional, Roberto Machado vai expor como o pensamento Socrático (Junto com Eurípedes, Sócrates marca o começo de um processo de ascensão da racionalidade e, por conseguinte, enfraquecimento dos instintos) nega a arte trágica por esta se fundamentar no e pelos instintos:

“O socratismo despreza o instinto e, portanto, a arte. Nega a sabedoria justamente onde se encontra seu verdadeiro reino”. Desprezando o instinto em nome da criação artística consciente que tem como critério a razão, o discernimento, a clareza do saber, o socratismo condena a arte e o saber trágicos.(1999, p.31).

É o uso do critério da razão, da consciência, que cria a esterilidade das manifestações artísticas. E é a partir dessa discussão entre razão e instinto, criação artística e saber consciente, que é possível discutir por que o sistema de ensino reproduz os paradigmas e parâmetros da razão, do por que a criatividade artística em geral ter papel secundário em relação à razão, na educação. 


A razão, como foi supracitado em sua definição mais abrangente, para criar a coesão entre experiência e memória, atos e palavra, saber e agir, deve necessariamente estabelecer as concepções reguladoras que visam reproduzir e fixar essa dualidade. Surgem então as ideias de ordem, disciplina, atenção, honestidade, etc. Assim como também seus elementos opostos: a indisciplina, a inquietação, a falta de concentração, o distúrbio, etc.

Todos esses elementos reguladores da conduta racional se colocam tanto nas instituições de ensino como na vida quotidiana em geral, com a finalidade de excluir os comportamentos indesejáveis. Um exemplo disso é a maneira como os “desvios” são avaliados a partir de um sistema racional que delimita quais alunos são aptos ou não para a vida escolástica. Gilberto Velho, no capítulo desvio e divergência, do livro Comportamento desviante em Copacabana demonstra como os usos de procedimentos de avaliação de inteligência (pautados numa razão), visam a selecionar os indivíduos a partir de uma lógica de considerada superior:

“O uso de procedimentos de avaliação da inteligência como base de diferenciação entre indivíduos é uma espécie de teste divisor cultural, que serve à simples função social de escrutinizar e selecionar indivíduos que podem reagir adequadamente a um sistema educacional determinado, com seus pontos de vista particulares acerca do que constitui inteligência e estilo geral de comportamento. Tais medidas servem à finalidade de selecionar e, mais, de moldar aqueles indivíduos de qualquer classe social em um certo estilo de pensamento, que é, subsequentemente defendido com o desenvolvimento superior”.(1971, p.59).

Ou seja, o sistema de ensino, pautado no uso racional de avaliação e seleção tendem a uniformizar os indivíduos e as inteligências, para situa-los a um determinado modelo de pensamento e comportamento. Nesse sentido, todo processo criativo que não se adeque a um determinado padrão ou modelo, é desestimulado ou considerado anormal. O sistema de ensino, então, se apresenta como o espaço de demarcação das inteligências, cujo critério de avaliação se baseia em sistemas ou conceitos baseados na razão.

Daí a importância da arte como experiência legítima e espontânea dos indivíduos, possibilitando uma relação autêntica e autônoma de rompimento com o modelo vigente das instituições de ensino, e privilegiando práticas que dinamizem a vida. A escola como lugar da arte, de um saber vital e instintivo, apesar de complexa para o nosso contexto social, deve sempre ser discutida como uma proposta possível e indispensável de um novo modo de pensar a educação.




Bibliografias:
Velho, Gilberto. “Estigma e comportamento desviante em Copacabana”, in américa latina, 1971.

Friedrich, Nietzsche. “Genealogia da moral”. São Paulo: companhia das letras, 2009.

Machado, Roberto. “Nietzsche e a verdade”. São Paulo: Paz e terra, 1999.

Carvalho, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro: Record, 2013.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Alvor de Édipo.

Alvor de Édipo.

Luz, luz que destoa em matizes
Luz que tange os olhos
Com a tela da incompletude
Luz que verte rastros de sombras
Luz dos arranjos e das submersas
Perguntas, processos de luz
Luz de espelho maleável
Possíveis pecados
Luz do eu-outro em
Astros cinza-ouro
Luz de rubras vias
Luz de exangue tenaz
Luz de lei e entidade
Companheira da vontade.

segunda-feira, 11 de março de 2013

A Identidade Nacional e O Patriotismo em Triste Fim de Policarpo Quaresma



O conceito de identidade nacional, assim como o de patriotismo, são definições que assumem nuances diversas no tempo e espaço, segundo a atividade política, cultural, econômica e particular que as legitimam. Por isso, convém primeiramente discutir os diversos matizes que acarretam o termo nação, e se este é capaz de representar uma identidade, isto é, de sintetizar características peculiares que são comuns a todos os brasileiros, assim como as suas diferenças específicas em relação às outras nações. E, por fim, discorreremos sobre como esses conceitos repercutem na obra de Lima Barreto: O Triste Fim de Policarpo Quaresma.

Entre os vários instrumentos ou meios usados para difundir a ideia de nação, um dos mais importantes e eficazes foi a literatura. No famoso artigo de Machado de Assis “Notícia da atual literatura brasileira: Instinto de nacionalidade”, ele destaca essa tendência que nossos escritores literários tinham para a construção da nacionalidade:

“Quem examina a atual literatura brasileira reconhece-lhe logo, como primeiro traço, certo instinto de nacionalidade. Poesia, romance, todas as formas literárias do pensamento buscam vestir-se com as cores do país”.

Nesse trecho já se nos apresenta uma problematização em dois aspectos: o primeiro é o de que um ato instintivo é uma ação espontânea, irrefletida, que, portanto, contradiz com a realidade daqueles literatos que, por via de regra, pareciam estar bem conscientes da vontade de construção de uma nação autônoma por meio das narrativas com as quais se enfatizavam a natureza e as cores locais; a segunda é a de que só podem “vestir-se com as cores do país”, se essas mesmas cores tiverem sido escolhidas previamente com um critério e objetivos determinados.

É exatamente dessas duas contradições que Maria Helena Rouanet trata em seu livro Eternamente em berço esplêndido: a fundação de uma literatura nacional (1991), e partir delas, demonstra minuciosamente como as noções de “nação” se distinguem conforme o processo histórico político-social que as estabeleceu. Vejamos então algumas definições, a primeira delas dada pelo Aurélio:

Agrupamento de seres, geralmente fixos num território, ligados por origem, tradições e lembranças, costumes, cultura, interesses e aspirações, e, em geral, por uma língua”.

E continua confrontando-as com a definição do Lexis, dicionário de língua francesa: “Grande Comunidade humana, instalada em geral num mesmo território ou em territórios dependentes”. (Rouanet, 1991, P.12-13).

Na primeira definição vimos que a definição de nação está restrita à organização estatal em termos territoriais e políticos e que essa organização data do século XVIII; no entanto, há um acréscimo na segunda definição, o do “territórios dependentes”. Explica Maria Helena que isso se deu pelo fato de que a França possuía territórios fixados fora daqueles que pertenciam às suas fronteiras continentais como os chamados “departamentos ultramarinos”.

Podemos, portanto, inferir que a ideia de nação não é um conceito fixo e absoluto, mas que sofre mudanças no tempo e espaço conforme as ações dos Homens, seja política, cultural ou socialmente. E é a partir dessa construção do ideário de nação que o indivíduo receberá também a formação do sujeito como parte integrante de um grupo, o qual partilhará (seus indivíduos), de características em comum. Daí necessariamente se seguirá à construção da identidade. Porém, é possível criar uma identidade que sintetize as características culturais de um povo em determinado território ou país? E é possível que essas características se consolidem como traços indissolúveis de uma nação, como uma entidade imanente no tempo e espaço?

Talvez antes de discutirmos as duas questões expostas, devamos distinguir a noção de unidade, da identidade, para que assim possamos delimitar melhor e isolar a ideia de identidade. No livro Música: vigência do pensar poético, de Antônio Jardim, ele nos apresenta uma definição de unidade e, por conseguinte, a de identidade:

Uma unidade é possível quando, mesmo que diferentes duas coisas con-formem uma, que passe a ter a sua vigência de modo indissolúvel, a quebra de sua unidade passa a ser o fator de sua destruição. Significa: no caso de duas ou mais coisas diferentes, nós passamos a ter uma unidade quando uma vez juntas essas unidades, se é incapaz de devolvê-las, por nenhum processo, a suas diferenças originais sem que com isso fique destruída a nova unidade composta por essas mesmas coisas”. (Jardim, 2005, P.50).

Segue-se a definição de identidade:

A identidade pode configurar uma espécie de unidade, mas a sua diferença em relação a esta é que nela essa unidade se dá exclusivamente na mediação, e assim só pode se dar abstratamente, isto é, no plano da ideia, da representação. [...] Algo é sempre idêntico a algo, em que este idêntico quer dizer, na verdade, uma cisão no elo entre fenômeno e linguagem, cisão operada pela instauração da ideia, que funciona ao mesmo tempo como possibilidade de cisão e unificação abstrata. Desse modo, a ideia passa a exercer como que uma supremacia quer em relação ao fenômeno, quer em relação à linguagem. (Jardim, 2005, P.51).

Na unidade há um elo construtivo que, depois de construída, não é possível separar as partes sem alterar o todo harmônico, nesse caso a unidade pode assemelhar-se a essência. Talvez possamos afirmar que seja possível uma unidade, e que essa unidade resida no fato de os brasileiros compartilharem de uma língua comum, o português, e que apesar das suas variantes específicas, ele nos dá essa possibilidade de compreender o outro.

Já no caso da identidade fica explícita a relação platônica que toma a realidade pela “ideia” e a substitui pela constante representação da segunda. Desta forma, toda necessidade de criar-se uma identidade se fundamenta, antes de tudo, na abstração. Sendo assim, os indivíduos acreditarão fazer parte de um povo, comunidade ou grupo não a partir de uma realidade concreta, mas de uma construção forjada, idealizada, que não raro se contradiz com a realidade em que ela se encontra.

Antes, então, de analisarmos a obra de Lima Barreto, considerado um dos precursores do modernismo, é mister apresentarmos as características que tornaram a literatura um dos instrumentos mais importantes para a construção da identidade nacional.  

A primeira característica, como bem expôs Maria Helena Rouanet, é a de que só a literatura pode exprimir os “elementos que passariam, então, a ser considerado patrimônio comum a todo um grupo”. (Rouanet, P.20). A literatura do século XIX e XX, não obstante, sempre tinha grande presença nos periódicos (apesar de que essas obras literárias ficassem restritas a um pequeno público) e meios de circulação, folhetins, etc. mais do que os livros de história e geografia que também tinham funções similares ao da literatura, porém era de difícil acesso.

Já a segunda característica pode ser resumida pelas palavras de Henry Fielding que diz que a literatura é “uma espécie de quadro em que a vida torna-se, por assim dizer, visível”, isto é, a literatura tem essa capacidade de desvelar, tornando visível o que antes estava submerso. Sendo assim, a literatura tinha como principal função a de demonstrar as características em comum que compõe uma dada nação.

Essa função da literatura se manteve ao longo dos séculos XIX e XX. Contudo, no caso específico da Obra O Triste Fim de Policarpo Quaresma, a narrativa parece seguir o caminho contrário: a da total descrença quanto à capacidade da literatura criar valores e características que definam uma nação. E é essa descrença que norteará Policarpo a derrota e a decepção acerca de seus projetos patrióticos. Silviano Santiago, em sua obra Vale quanto pesa, no capítulo denominado Uma ferroada no peito do pé, trata de ressaltar o componente narrativo da “redundância” (1982,P.163), como forma de prender a atenção do leitor não muito afeito a leituras difíceis. Contudo, a meu ver a redundância me parece mais uma maneira de direcionar o leitor ao fracasso premeditado do protagonista, reforçando pela mesma “redundância”, constantemente, a falta de senso das proporções do protagonista.

Mais adiante, Silviano discorre sobre como essas repetições tratam de preencher o campo vivo das interpretações variadas e subjetivas do leitor pela “justa interpretação” do autor:

Por outro lado, serve ela para manter uma determinada linha de interpretação, um determinado sentido do texto, sentido este que se encontra interrompido pela intermitência do seu aparecimento e desaparecimento. Em ambos os casos, abole-se a participação individual do leitor no processo de compreensão, já que a própria obra traz em si as configurações gerais e coletivas da sua leitura. O autor não só passa para os leitores comuns o drama, como ainda a leitura mais “justa” dele. (Silviano, 1982, P.164).

Dessa estratégia narrativa se podem extrair duas interpretações: a primeira é a de que o autor, encaminhando o leitor para vereda “correta”, não o deixa se perder entre “os fios soltos da meada ficcional” (1982, P.163), fixando sua atenção ao drama concreto vivido pelo protagonista; a segunda é a de que o autor, assumindo o papel de guia na obra, destaca o caráter ficcional, ou seja, o recorte voluntário que o autor faz da realidade através da narrativa.

Esse recorte da realidade na ficção, e em particular no Policarpo Quaresma, aproxima-se da definição de identidade já mencionada aqui, uma vez que esse recorte, essa vereda que o autor toma para si para guiar o leitor, também é uma forma de impor uma visão de mundo, que é a de que a busca incessante por uma identidade nacional é uma quimera, é um enclausurar-se num mundo de ideias que não reflete a realidade concreta do momento.

É por este motivo que logo no início da narrativa são apresentadas as referências bibliográficas, que constituíram a personalidade culta e patriota de Policarpo, isto é, Policarpo detém-se antes nos livros, nas ideias abstratas, do que na realidade sócio-política e econômica, no solo firme em que essa sociedade está inserida; e é essa cegueira perante a realidade que o torna uma personalidade caricatural, ainda que esse aspecto se mostre ambíguo ao longo da narrativa. Ambíguo, porque, se por um lado temos um policarpo alienado da sociedade, preocupado mais com uma imagem de pátria, do que com os problemas mais evidentes e imediatos dela, por outro lado todos os personagens agem por conveniência e pensam somente em benefício próprio, como no caso de Ismênia que só pensava no casamento (P.75), ou como Ricardo que usava o pretexto de está promovendo a música nacional, apenas com o fim de adquirir fama e destacar-se. (P.73). E com frequência são comparados os comportamentos fúteis destes com a dignidade e solidez da personalidade de Policarpo.

Outros exemplos, como a inveja dos funcionários da repartição pública em que Policarpo era funcionário, ou as intrigas políticas, insolúveis, no campo e na cidade só reafirmam essa dissonância entre a mente idealizada do protagonista (que por vezes é elogiada, como mencionamos antes aqui sobre a “ambiguidade”) e o comportamento mesquinho dos demais personagens.

É dessa dissonância que Policarpo sucumbirá três vezes na tentativa de novas reformulações culturais e políticas para o Brasil. Porém, destas três decepções, as duas primeiras parecem vir como uma profunda investida contra os ideais românticos: o tupi, assim como os seus falantes, é indiferente à sociedade brasileira, contrapondo radicalmente ao índio guerreiro ou ingênuo das primeiras narrativas românticas sobre esta terra e a preocupação de integrá-los, ao menos ficcionalmente.

A segunda decepção também pode ser considerada uma nova investida contra o Romantismo, uma vez que a natureza abundante, as nossas terras, risonhas com lindos campos, com mais flores do que todos os outros campos são, em Policarpo, estéreis.

E a terceira decepção talvez se refira à incredulidade quanta à própria civilização ou a nação como produto desta, e as pretensas virtudes a ela atribuídas. Paradoxalmente, Policarpo é condenado à morte por “traição à pátria”, ou seja, a pátria concreta, real, é o extremo oposto da sua ideia de “pátria”, abstrata, ideal, que vê na busca da identidade uma negação da própria realidade.

Daí que a narrativa de Triste Fim de Policarpo Quaresma, tenha como principal finalidade a desconstrução da ideia de construção de uma identidade nacional, a total incredulidade quanto à tentativa de estabelecer características permanentes e imutáveis na sociedade brasileira; e o mais importante de tudo: de que a ideia de que somos uma só nação, e que compartilhamos das mesmas convicções, aspirações, angústias, seja mais abstrata do que real, mais superficial do que concreta.


Referências Bibliográficas:

ROUANET, Maria Helena. Eternamente em berço esplêndido: a fundação de uma literatura nacional. São Paulo: Siciliano, 1991
Santiago, Silviano. “Uma ferroada no peito do pé”. IN: Vale quanto pesa. Rio de Janeiro, Paz e terra, 1982.
Fielding, Henry. Tom Jones. Tradução brasileira. São Paulo: Editora Abril, 1971 [1749].
Barreto Lima. O Triste Fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Editora Martin Claret, 1999.
Machado de Assis, J.M. “Notícia da Atual Literatura Brasileira. Instinto de Naciionalidade”. In: Obra Completa de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, v.III,  1994.
Jardim, Antônio. Música: Vigência do Pensar Poético. Rio de Janeiro: 7Letras, 2005.