quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Demônio da Teoria: mímeses e literatura.

  A mimèsis foi o termo mais usual desde a poética de Aristóteles, para referir-se à relação entre literatura e realidade. No capítulo III O mundo do livro o demônio da teoria, de Antoine Compagnon, estabelece-se um panorama sobre as discussões que se sucederam, sobretudo, pelos teóricos da literatura, sobre a relação literatura e referência.

  A maioria dos teóricos, ao longo da história da teoria literária, defenderam a autonomia da literatura em detrimento a uma possível representação da realidade, isto é, a forma era privilegiada e unicamente considerada como a própria estrutura da literatura. A referência a uma exterioridade seria uma “ilusão”, tendo, pois, a literatura uma auto-referência, um diálogo a que só pertencia, meramente, ao texto enquanto tal.

  Esse é o aspecto central, do qual Antoine Compagnon se baseia para defender uma posição mimética, na qual a literatura não somente alude ao texto em si, mas que dela há uma relação com a realidade.

  A primeira discussão sobre essa noção de auto-referência é analisada sob as influências da lingüística estruturalista de Saussure, da qual foi determinada toda base autotélica, posteriormente usada pelos teóricos formalistas do estruturalismo e o pós-estruturalismo. Esse conceito lingüístico baseava-se, estritamente, em um estudo semiótico, cuja relação entre signos, (e não mais entre palavra e coisa), se sobrepunha a mimèsis. A noção Saussuriana dos signos lingüísticos, como uma constituição arbitrária entre um significante e significado, foi tomada a partir de uma interpretação equivocada por alguns teóricos como Barthes e Jackobson, que lhes permitiu uma adequação e base para afirmação de que a literatura fala dela mesma e não de outra coisa, seja pela “intertextualidade” ou pelo “dialogismo”.

  Antoine compagnon divide a discussão que se sucede em dois grupos antagônicos: o primeiro, diz respeito aos principais teóricos que são contra a noção mimética da literatura; o segundo, àqueles que são a favor de uma literatura mimética, da qual se reflete para algo exterior, propriamente fora da expressão, da forma como referência única. O ponto de partida se dá, portanto, através da interpretação mimética da poética de Aristóteles, interpretação pela qual Antoine compagnon demonstra não ser a única, mas a mais comumente aceita. De um lado, Barthes alega que a mimèsis é repressiva, por estar ligada a doxa, ou seja, aquilo que remete ao senso comum, à construção social e à ideologia. Por outro lado Jackobson fundando os seis fatores da comunicação (emissão, mensagem, destinatário, contexto, código e contato), e entre as seis funções da linguagem, duas especialmente solicitadas (função referencial e função poética), determinava que na literatura haveria uma função que se referia (função poética) a ela mesma.

  Para compreender, precisamente, o que levou ao aprisionamento da literatura a si própria, pelos teóricos da literatura, era necessário, portanto, remontar a poética de Aristóteles. Em Aristóteles a mimèsis expressava a relação de verossimilhança ao sentido natural, enquanto para Barthes, a mimèsis foi interpretada em relação ao sentido cultural, à doxa, ou seja, a opnião, àquilo que é senso comum ou ideologia. Para Platão, a mimèsis é subversiva, pois a arte como tal, poderia comprometer a ordem social, a organização da polis. No entanto, Antoine Compagnon discorre sobre algumas alterações no sentido da palavra mimèsis quanto ao seu uso, estabelecida pelo próprio Aristóteles na poética, ou seja, o drama e a epopéia, antes opostas pela diègesis, (narrativa) passa agora a se opor em termos de representação da história, tido como discurso direto e exposição da história ou discusso indireto. A mimèsis, pois, passa a ser a representação das ações humanas, cabendo a ela, tanto na epopéia quanto no drama, o muthos, a história, que era técnica no sentido propriamente da construção da narrativa.

  Essa interpretação, empregada por Antoine compagnon, apresentava a mimèsis como uma análise que se prestigiava propriamente da linguagem enquanto forma, estrutura do estudo da história e da técnica da narrativa enquanto tal. Em suma, a concepção diversa e pouco comum determinada por Antoine Compagnon favorecia, em geral a noção antimimética, pois o campo semântico era totalmente excluído da análise.

  Mais adiante a ambigüidade entre mimèsis, tida como imitação natural ou cultural, era um problema apontado desde os teóricos da doutrina clássica, que resolveram determinar a mimèsis como imitação da natureza, por analogia à tradição literária clássica, que era a de imitar as obras, que eram consideradas grandes modelos literários.

  Ademais, Antoine compagnon atenta para a interpretação do termo doxa, tomado pelos teóricos como sendo próprio o verossímil, o qual é construído, pela opnião ou pela ideologia. Essa linha de pensamento foi seguida pela maioria dos teóricos marxistas, cuja noção da referência da realidade se restringia, meramente, à ideologia, à convenção. Essa concepção, como se observa, reduzia a linguagem à ideologia. A noção marxista da referencialidade como convenção, impor-nos-ia a uma luta ininterrupta de convenções, cujas manifestações seriam apenas a expressão legítima da luta de classes. Essa e outras questões contribuíam no auxílio de análises frágeis e equivocadas, que permeavam com radicalismo a teoria literária.

  Toda a discussão que se segue em sua obra, baseada na crítica da auto-ilusão, proposto, sobretudo no artigo O Efeito de Real de Barthes, renegava a literatura ao isolamento, não referindo a realidade senão a ela mesma, mediante signos, determinando a “ilusão referencial” como uma espécie de prisão. Essa noção, tal qual expressa por Barthes, elimina quaisquer possibilidades de distinção do leitor entre ficção e realidade. Compagnon, entretanto, demonstra alguns vestígios de viabilidade, mediante autores como Bakhtine, cuja noção de “dialogismo” apresentava uma abertura a uma referência fora da literatura, estabelecendo o conjunto social como um reflexo do conjunto textual. Um outro teórico chamado Rifaterre, afirmava que a língua correspondia a uma unidade significativa, contudo, essa unidade correspondia apenas à linguagem cotidiana; isolando, assim, o texto literário, cuja unidade significativa era a própria forma poética, denominada de significância. Nos dois casos, vimos que tanto em Bakhtine, quanto em Rifaterre, o referencial a algum traço mimético perde espaço para o isolamento do texto.

  Para refutar a concepção estruturalista, Compagnon busca em autores como Northrop Frye, os componentes necessários para que pudesse, definitivamente, reconhecer a natureza mimética da literatura como processo constitutivo e legítimo da mesma. A partir da defesa mimética, há, portanto, a ressalva das três noções poéticas propostas por Northrop: O muthos (a história, intriga), a dianoia (intenção, tema ou pensamento), e anagnôrisis (reconhecimento). Contudo, Northrop não especifica sobre o que exatamente se refere à intenção ou pensamento, nem se a intenção condiz à intenção do autor ou a intenção “auto-sugestiva” do texto. Frye indica, pois, que a função da mimèsis não é, restritamente, cópia, mas uma construção de fatos que pode ser revelada por meio dos acontecimentos da narrativa, pela nossa inteligibilidade. Neste aspecto o texto conduzir-nos-ia ao reconhecimento (anagnorisis), daquilo a que o texto faz referência.

   Frye se pauta na noção de reconhecimento para propor, a partir de uma análise da tragédia de Édipo, que a literatura revela um reconhecimento, pelo qual se adquire a consciência da sua condição através do herói. Esse reconhecimento foi estabelecido como um reconhecimento “interior” (que é revelado pelo herói), ao passo que haveria um reconhecimento “exterior”, cuja apreensão seria feita pelo leitor, daquilo que poderia ter sido se houvesse um caminho ou história inversa a da narrativa trágica. No entanto, Compagnon mantém a discussão apenas sobre o foco da ambigüidade do reconhecimento, se esse reconhecimento seria de fato apreendido por uma apropriação do leitor ou um resultado da estrutura da literatura. Não há, entretanto, uma contestação sobre a validade do reconhecimento, se fosse aplicado aos outros gêneros como o romance e a prosa.

  O muthos, portanto, recebe um destaque maior e passa a ser, assim como a mimèsis, não mais uma operação, mas a própria estrutura, onde a intriga torna-se a própria representação das ações humanas. Desses conceitos, a mimèsis é apresentada, não como uma cópia da realidade, mas como uma configuração que se relaciona com a nossa inteligibilidade, cuja ação do tempo e a dimensão renovam as leituras, as novas interpretações, dando dinamicidade, reconhecimento, e abrangendo conhecimentos que se sobrepõem ao que é comum.


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