quinta-feira, 28 de julho de 2011

Alegoria e parábola em Melville e Kafka.(parte 1)


Para entendermos a narrativa da obra de Melville, intitulada Billy buddy, devemos remontar à concepção de parábola, e a maneira como ela se define, transmutada significativamente na literatura moderna. A parábola (do grego parabolé) significa comparação, semelhança ou aproximação.

Certamente, a parábola se constitui de elementos de comparação, ou seja, a linguagem metafórica compõe a estrutura mesma da narrativa parabólica. Um exemplo que ilustra de maneira simples e didática é o Evangelho segundo S.Mateus, capítulo 13:

Acercou-se dele, porém, uma tal multidão, que precisou entrar numa barca. Nela se assentou, enquanto a multidão ficava à margem.( MT, 13, 2).

A definição simbólica de aproximação, como vemos no início da parábola do semeador, apresenta uma concepção que não apenas se estabelece no campo semântico, mais formalmente: A multidão se aproxima de Jesus, o qual ocupa uma posição nuclear, enquanto os outros se acomodam perifericamente.

A parábola, tanto semântico como formal, tem um valor doutrinário, que é o ensinamento da moral devida, das condutas consideradas apropriadas ao homem e de como através delas se alcança o estado divino pleno, que é Deus. Ela se dissemina através de um líder, pelo qual é transmitido por meio de elementos metafóricos, relativamente comuns a um determinado meio. Sobre esses aspectos, nos mostra a parábola do semeador:

[..] Logo, porém que o sol nasceu, queimou-se, por falta de raízes. Outras sementes caíram entre os espinhos: Os espinhos cresceram e as sufocaram. Outras, enfim, caíram em terra boa: Deram frutos, cem por um, sessenta por um, trinta por um. Aquele que tem ouvidos ouça.(MT, 13, 6). 

Na narrativa parabólica há aspectos bastante delimitados, e que geralmente são comuns numa sociedade. Como a parábola tem uma narrativa com finalidades doutrinárias, é necessário que sua linguagem se aproxime de forma mais eficaz possível a um grande número de adeptos. As palavras sol, raiz, espinho, terra boa, frutos etc. são termos que remetem a vida dos homens comuns, facilmente perceptíveis, que revelam uma ligação íntima aos conhecimentos mais gerais da agricultura. Há também outro aspecto que está ligado à agricultura: os cálculos. Todas essas características expressavam a possibilidade da doutrina ser transmitida com eficácia àquelas pessoas que em geral eram agricultores. Ademais, as parábolas encerram-se em uma interpretação que se considera “correta”, isto é, o valor interpretativo da parábola é único, imutável, e toda interpretação fora do campo que a parábola, no caso “propor-se-ia”, seria considerada uma transgressão, um afastamento do que seria “o sentido real”.


Na obra de Melville, denominada Billy Budd, a narrativa parabólica se define pela sua estrutura formal, sendo suprimidos alguns traços característicos da narrativa parabólica tradicional.

A história se passa num ambiente marítimo, onde o jovem marujo billy adquire a estima e o apreço dos tripulantes, seja pela sua devoção “ingênua”, quanto pelos seus traços físicos e morais.

Esses traços são freqüentemente enfatizados na narrativa, através dos quais o protagonista suscita grande admiração ou até mesmo inveja nos tripulantes. No primeiro capítulo, essas características são previamente expostas na seguinte partícula:

Sem dar mostras de vaidade, revelando, ao contrário, a naturalidade despreocupada daqueles em quem a realeza é um traço de caráter, parecia aceitar a homenagem espontânea que seus colegas de bordo lhe dedicavam.(Melville, 2003, P.17).

Billy apresenta uma elevada qualidade de caráter, a qual se distingue naturalmente, sem que haja vontade alguma pelo apreço. As qualidades de Billy, à guisa de um belo quadro, são perceptíveis pela simples presença de sua existência. Mais adiante, essas qualidades morais são complementadas com a proporcionalidade e vigor dos seus traços físicos, estabelecendo, assim, a construção do tipo:

[..] sujeito de corpo bem proporcionado, mas muito mais alto que a média. As duas pontas de um lenço de seda alegre, frouxamente amarradas ao redor do pescoço, dançavam sobre o ébano desnudo de seu peito; tinha nas orelhas grandes argolas de ouro; e um boné escocês, circundado por fita de tecido xadrez, adornava a cabeça bem formada.( Melville, 2003, P. 18).

A relação de tipo está intimamente associada com o êthos (caráter) e são, no decorrer da obra, indissociáveis. O tipo em Billy Budd está também relacionado à figura do salvador, que mantém, através das qualidades físicas e morais, a harmonia entre os tripulantes.

Essa admiração dos tripulantes ao marujo, freqüentemente, assemelha-se ao fenômeno do devaneio, descrito na obra de Rousseau, chamada Os devaneios do caminhante solitário (Rousseau, 1986), cuja descrição do encanto está relacionada ao afastamento da sociedade (que representaria a mediação, a convenção ou a racionalidade) e a exposição dos sentidos passivos ante os vislumbres da natureza, exposta em seu estado puro. Da mesma forma Billy causa admiração aos tripulantes, pois a sua proporcionalidade e beleza física eram expostos de modo puro, como faz a natureza.

O caráter tipológico do salvador, agregado a concepção da natureza pura, funcionam em uma espécie de simbolismo, pelo qual se estabelece um dialogismo entre a narrativa em Billy Budd com as narrativas bíblicas. Do simbolismo bíblico, há uma outra noção, a de alegoria.

Na análise de Merquior, em arte e sociedade em Marcuse, adorno e Benjamin, Merquior, a partir da proposta de alegoria, estabelecida por Benjamin, ilustra a diferenciação entre símbolo e alegoria:

O símbolo tem uma natureza “plástica”, porque é condensação imediata da idéia na forma adequada; a alegoria, em vez disso, é “temporal”, porque sempre exprime algo diverso do que se pretendia dizer com ela.( Merquior, 1969, P.104).

O símbolo, portanto, é uma representação imediata, estritamente configurada no sentido de cópia ou impressão, daí por que o termo plástico pode, pois, ser adequado numa idéia, sem que haja controvérsias. No entanto, a alegoria é temporal, pois a interpretação que se estabelece através dela, pode refletir uma visão do indivíduo, da cultura e da sociedade, projetada na obra, e que, portanto, essa interpretação seria passível de variação com o decorrer do tempo. Por fim, temos a idéia última de que a alegoria exprime algo diverso do que se pretendia dizer com ela, ou seja, a alegoria toma um caráter polissêmico, onde as relações de significado e significante se diluem.

Vimos, portanto, algumas concepções como tipo, símbolo, alegoria, e parábola. De que modo, porém, essas concepções se inserem na narrativa de Melville? Podemos afirmar, que a narrativa de Bully Budd é composta por parábolas, e que, contudo, também é composta por alegoria.

Diferentemente do Evangelho segundo S.Mateus, a narrativa de Billy Budd não apresenta uma doutrina moral estável, uniformemente interpretável. No entanto, a estrutural formal é feita por parábola. Pelo fato de a narrativa estabelecer uma infindável possibilidade de interpretações diversas, pode ser considerada, portanto, alegoria.

Em Billy Budd, o símbolo do cristianismo, aludido em quase toda obra, é expresso pela figura angelical de Billy, ou pela figura da natureza ingênua, descrita como uma pomba indefesa ou um iletrado rouxinol (Melville, 2003, P.29). As qualificações indefesa e iletrado, remetem a falta de conhecimento do garoto às convenções sociais, ou à vontade mediada, sendo, contudo, os animais, portadores de valores simbólicos como a paz e a liberdade.

Outro aspecto significativo, bastante enfatizado na narrativa, é a relação de sacrifício entre o murujo e o Capitão Vere, que por sua vez foi colocado em um dilema do qual deveria escolher, pela grande estima paternal que sentia pelo jovem Billy: Ter a honra militar maculada ou julgar o menino por um crime, do qual não cometeu.

O sacrifício de Billy, após ser julgado e condenado ao enforcamento, mesmo com a total ciência do Capitão Vere da inocência do jovem marujo, foi concretizado. Este episódio nos remonta ao sacrifício bíblico do Deus pai que crucifica o filho enviado, para que os pecados humanos fossem eliminados. Certamente, billy foi o resultado e a compensação dos pecados daqueles marinheiros, rigidamente fundamentada na justiça humana: Billy morre para compensar os erros de uma justiça institucionalmente social. Daí a comparação do momento derradeiro de Billy com a sublime figura do cordeiro de Deus( Melville, 2003, P.126).


domingo, 17 de julho de 2011

A natureza dos sentidos em Rousseau e Hoffmann. (Parte 2).



   Tratado dos aspectos mais gerais da obra de Rousseau passemos, portanto, para a obra de Hoffmann, em sua obra intitulada Contos fantásticos, destacando entre elas, o conto O homem da areia, no qual podemos traçar uma análise comparativa com as obras de Rousseau.

   O termo fantástico, segundo Todorov, no seu livro Introdução à literatura fantástica se divide em dois gêneros, o maravilhoso e o estranho, (Todorov, 2007 P.48). O maravilhoso, seguindo a concepção de Todorov, é tudo aquilo que é sobrenatural, porém aceito, ou seja, aquilo que expressa uma relação referente com a realidade possível, enquanto o estranho se fundamenta sempre sob uma explicação racional, pois sua característica mística ou misteriosa quase sempre suscita uma investigação que caminha para ordem do “provável”.
   No homem da areia, o personagem e narrador Natanael, expõe, mediante epístolas, um fato marcante da sua vida que o acompanhou desde sua infância até sua fase adulta: A história do homem da areia. O homem da areia, sendo de fato uma história ficcional que sua mãe criara para persuadir o filho a ir para cama na hora de dormir, foi, durante toda vida de natanael tomado como uma entidade real, personificada na figura do medonho advogado Coppelius.

   Levi Strauss, em seu livro intitulado antropologia estrutural, investigando o fenômeno das bruxas na idade média, estabeleceu duas características fundamentais do comportamento psicológico das pessoas que acreditavam em bruxaria: A primeira é a crença do individual na eficácia da bruxaria, consciente de ser vitimo de um malefício, e a segunda é a crença social que consolidava a certeza da existência das bruxas. (Strauss, 1973, P.193).

   No caso do conto de Hoffmann, Natanael estava convicto na eficácia funesta do homem de areia, apesar de não haver nenhum compartilhamento social que a legitimasse. As imagens aterradoras do advogado coppelius, e as imagens do lago de fogo, e, sobretudo, as ameaças de que lhe poderiam retirar seus olhos, destacam os devaneios de natanael como que manifestados de forma diversa ao devaneio da ilha de “saint-pierre”: Não mais a natureza, pelo seu gesto suscita o devaneio, mas sim, a visualidade criada pela consciência de Natanael.

   A consciência de natanael, através da visão do homem de areia, o torna artífice de si mesmo: Enquanto o devaneio para Rousseau eliminava seus movimentos internos, e afirmava a sua existência através dos “ruídos das águas”, que lhe preenchia por meio dos sentidos; em natanael toda sua existência é preenchida pelo seu artífice imagético. A natureza para Natanael é indiferente: O que cria o encanto são as suas expectativas situadas naquilo que ver.

   Essa característica torna-se patente quando, Olímpia, uma boneca de madeira, torna-se o objeto da sua paixão. Se a paixão em Rousseau criara a união entre os homens (2008, P.103), no Homem da areia, a paixão é isoladora; não estabelece laço algum nem se manifesta pela voz ou pela língua. O trecho da carta de Clara, (sua futura esposa) a natanael (Hoffmann, 1993, P.122), exclamativa e afetuosa, revela a tentativa da afirmação da língua como paixão, que, contudo, está sempre posta em plano inferior, predominando, no mais das vezes, os componentes da visualidade.

   Clara, no entanto, representa a racionalidade, a lógica, é precisamente límpida. Freqüentemente emprega esforços para dissuadir Natanael da idéia do Homem de areia. A clareza de clara, e sua propensão à racionalidade culminam em um evidente conflito entre o casal em todo decorrer da narrativa. Um trecho em que esse conflito é exposto, cuja negação da realidade e da racionalidade por natanael se chocam com a transparência de clara, é na carta de Natanael a lotar:

   Ela me escreveu uma carta bastante grave e filosófica, na qual demonstra pormenorizadamente que Coppellius e Coppola só existem em minha mente e são fantasmas de meu eu que se pulverizarão no momento em que reconhecê-los como tais. (Hoffmann, 1993, P.125).
  
   O termo empregado por Natanael, pormenorizamente demonstra a natureza lógica de clara, a qual tanto lhe aborrece. Não obstante, em outro diálogo, Clara alude novamente a sua personalidade alienante:

   “Mas querido natanael”, comentou clara depois de uns instantes de atenção, “se eu dissesse que você é o príncipio do Mal que tem efeitos hostis sobre o meu café? Pois se eu, como você quer, deixasse tudo de lado e, durante sua conferência, o olhasse nos olhos, o café acabaria por derramar no fogo, e então ninguém teria café da manhã!” (1993, P.130).

   A situação ilustra com clareza a recusa da realidade empregada por Natanael, o mundo existente é a mera construção perceptiva da sua visão. Esse solipsismo ganha maior força na descrição do olhar da boneca Olímpia cujos olhos faiscantes do espelho do riacho de águas claras, lhe fitavam (1993, P.137). A metáfora do espelho do riacho de águas claras remete ao desejo narcísico das suas expectativas refletidas como um espelho, e dos seus desejos límpidos e harmoniosos como o riacho de águas claras. Enquanto que em Rousseau o solitário significa o homem que se refugia na natureza, em O homem da areia, a solidão significa refugiar-se no próprio Ego.

   Decerto, todos esses aspectos se apresentam insuficientes diante da força mística que o conto de Hoffmann nos proporciona. Embora a obra corresponda ao maravilhoso e ao estranho, a predominância do segundo mantém o elo com aquilo que torna a literatura fonte inesgotável: a busca pelo desvendamento daquilo que é oculto, não-familiar, e supra-racional.




                 Bibliografia


STRAUSS, Lévi. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1973.

HOFFMANN, E.T.A. in: Contos Fantásticos. Trad. Claudia Cavalcanti. Rio de Janeiro, 1993.

ROUSSEAU, Jean – Jacques. Ensaio sobre a origem das línguas. Campinas: Editora da unicamp, 2008, terceira edição.

ROUSSEAU, Jean – Jacques. Os devaneios do caminhante solitário. Brasília: Ed. Da universidade de Brasília, 1986.

TODOROV, tovetan. In: Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2007, 3º edição, 1º impressão.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A natureza dos sentidos em Rousseau e Hoffmann. (Parte 1).

                                                      
   No livro, Os devaneios do caminhante solitário de Rousseau, o relato do encanto ante o panorama paradisíaco da ilha de Saint- Pierre, em sua estada de dois meses, remete-nos a uma reflexão íntima entre o Homem, a natureza e a sociedade. O relato de Rousseau a descreve como um lugar harmonioso e idílico, singularmente posta para felicidade do homem que gosta de se circunscrever (Rousseau, 1986, p.71). O termo circunscrever, empregado por Rousseau, pode ser expresso como o afastamento, sobretudo o afastamento da cidade, da vida burocrática e da racionalidade ou objetividade.

   Para compreendermos essa oposição entre o sentir (manifestado em seu estado de encanto com a natureza pura) e a racionalidade ou, em outros termos, a convenção, é preciso expor claramente alguns aspectos abordados em Ensaio sobre as origens das línguas, no qual Rousseau propõe que o surgimento das línguas sucedeu no momento em que o homem passou a reconhecer o próximo como um ser pensante e sensível (Rousseau, 2008, P.97). A partir desse reconhecimento, os meios pelos quais os homens se utilizarão para se expressarem, e agirem sobre seus semelhantes serão os sentidos.

   Rousseau descreve esses sentidos, determinando-os em hierarquias, entre os quais estão os sentidos ativos, que seriam o gesto e a voz; e os sentidos passivos, que são a visão e audição. Contudo, o gesto seria mais expressivo, situado por Rousseau, como sendo a comunicação mais pragmática e efetiva. Nesse caso, o movimento, o gesto torna-se um componente persuasivo ao contrário da palavra, que é posta em um plano secundário, pois esta dependeria, estritamente, de convenções que o gesto as sobrepujaria.

   Este fenômeno é explicitado por Rousseau, a partir dos objetos, que por sua beleza, e em sua maior quantidade, em detrimento das formas que impressionam nossos ouvidos, são mais expressivas e dizem em menor tempo (Rousseau, 2008, P.98). Desta concepção particular, afirma:

   Abri a história antiga; encontrá-la-eis repletas destas maneiras de argumentar para os olhos, e elas nunca deixam de produzir um efeito mais seguro do que todos os discursos que se poderiam colocar em seu lugar. (2008, P.99).

   Portanto, o gesto, sendo apreendido pelo sentido visual, tem sua posição predominante em relação à voz e a audição. Logo em seguida, Rousseau prossegue:

   O objeto oferecido antes de falar faz vibrar a imaginação, excita a curiosidade, mantém o espírito suspenso e na expectativa do que se vai dizer.(2008, P.99).

   O objeto estimula a imaginação, e precede sempre a fala, a visualidade mantém o espírito suspenso, ou seja, a natureza nos leva ao silêncio. Porém, em Devaneios do caminhante solitário, a natureza é, ao mesmo tempo, gesto e silêncio: Gesto, porque tem seu movimento próprio; silencioso, pois não apresenta nenhuma finalidade exceto em si mesma.

   O gesto da natureza, ou seja, o movimento que cria ao sentido passivo da visão, o devaneio, é, então, manifestado pela percepção do seu movimento físico, material da natureza:

   [...] lá o ruído das vagas e a agitação da água fixando meus sentidos e expulsando de minha alma qualquer outra agitação, a mergulhavam num devaneio delicioso, em que à noite me surpreendia muitas vezes sem que o tivesse percebido.(Rousseau, 1986, P.75).

   A agitação das águas o trazia para sua atenção, entrelaçando-o pelos sentidos, e condicionando-o a ausência de percepção do tempo e espaço, surpreendido pela aparição da noite.

   Além do gesto, a natureza lhe trazia o silêncio, a propriedade de não haver nenhuma finalidade senão a sua própria existência. O deleite, pois, não tem nenhum objeto bem determinado (1986, P.74). A palavra objeto refere-se ao esvaziamento de toda e qualquer função ou costume mediado pela racionalidade. Eis, portanto, a relação do homem com a natureza e a sociedade. Enquanto a primeira não exige nada senão a afirmação da sua existência e do seu encanto, a segunda, está estritamente associada à vida social, às convenções.

   Adiante, Rousseau descrevendo os encantos e deleite que a ilha lhe proporcionara, revela uma característica específica da experiência do devaneio:

   O fluxo e o refluxo dessa água, seu ruído contínuo, mas crescente por intervalos, atingindo sem repouso meus ouvidos e meus olhos, supriam os movimentos internos que o devaneio extinguia em mim e bastavam para me fazer sentir com prazer minha existência sem ter o trabalho de pensar. (1986, P.75).

   O devaneio extingue os movimentos internos, isto é, o homem embevecido perante a natureza tal como é, permite que seja absorvido, esvazia-se e, por conseguinte, é preenchido pelo ruído e o fluxo das águas, através dos sentidos da audição e visão. Podemos observar o aspecto cíclico do devaneio, pois este, ao mesmo tempo em que retira do homem o seu movimento interno, o recompõe suprindo, através dos sentidos, sua ausência de movimento interno, retribuindo-lhe o necessário para que pudesse sentir o prazer da existência.

   Embora Rousseau privilegiasse o gesto em detrimento da voz, no capítulo II, do livro Ensaio sobre as origens das línguas, há uma tomada de posição inversa: a palavra e a voz passam a ocupar um posto privilegiado em relação ao gesto. A voz, segundo Rousseau, originou-se das paixões humanas, cujos povos primitivos criaram seus primeiros laços de união. O gesto, então, torna-se resultado das necessidades humanas.

   Ademais, a voz, sendo resultante das paixões humanas, é sugerida por Rousseau como proveniente das primeiras línguas que seriam figuradas, (2008, P.103). Logo, as línguas sendo figuradas, proveriam particularmente da cultura oral dos poetas.

(Continua)