quinta-feira, 14 de julho de 2011

A natureza dos sentidos em Rousseau e Hoffmann. (Parte 1).

                                                      
   No livro, Os devaneios do caminhante solitário de Rousseau, o relato do encanto ante o panorama paradisíaco da ilha de Saint- Pierre, em sua estada de dois meses, remete-nos a uma reflexão íntima entre o Homem, a natureza e a sociedade. O relato de Rousseau a descreve como um lugar harmonioso e idílico, singularmente posta para felicidade do homem que gosta de se circunscrever (Rousseau, 1986, p.71). O termo circunscrever, empregado por Rousseau, pode ser expresso como o afastamento, sobretudo o afastamento da cidade, da vida burocrática e da racionalidade ou objetividade.

   Para compreendermos essa oposição entre o sentir (manifestado em seu estado de encanto com a natureza pura) e a racionalidade ou, em outros termos, a convenção, é preciso expor claramente alguns aspectos abordados em Ensaio sobre as origens das línguas, no qual Rousseau propõe que o surgimento das línguas sucedeu no momento em que o homem passou a reconhecer o próximo como um ser pensante e sensível (Rousseau, 2008, P.97). A partir desse reconhecimento, os meios pelos quais os homens se utilizarão para se expressarem, e agirem sobre seus semelhantes serão os sentidos.

   Rousseau descreve esses sentidos, determinando-os em hierarquias, entre os quais estão os sentidos ativos, que seriam o gesto e a voz; e os sentidos passivos, que são a visão e audição. Contudo, o gesto seria mais expressivo, situado por Rousseau, como sendo a comunicação mais pragmática e efetiva. Nesse caso, o movimento, o gesto torna-se um componente persuasivo ao contrário da palavra, que é posta em um plano secundário, pois esta dependeria, estritamente, de convenções que o gesto as sobrepujaria.

   Este fenômeno é explicitado por Rousseau, a partir dos objetos, que por sua beleza, e em sua maior quantidade, em detrimento das formas que impressionam nossos ouvidos, são mais expressivas e dizem em menor tempo (Rousseau, 2008, P.98). Desta concepção particular, afirma:

   Abri a história antiga; encontrá-la-eis repletas destas maneiras de argumentar para os olhos, e elas nunca deixam de produzir um efeito mais seguro do que todos os discursos que se poderiam colocar em seu lugar. (2008, P.99).

   Portanto, o gesto, sendo apreendido pelo sentido visual, tem sua posição predominante em relação à voz e a audição. Logo em seguida, Rousseau prossegue:

   O objeto oferecido antes de falar faz vibrar a imaginação, excita a curiosidade, mantém o espírito suspenso e na expectativa do que se vai dizer.(2008, P.99).

   O objeto estimula a imaginação, e precede sempre a fala, a visualidade mantém o espírito suspenso, ou seja, a natureza nos leva ao silêncio. Porém, em Devaneios do caminhante solitário, a natureza é, ao mesmo tempo, gesto e silêncio: Gesto, porque tem seu movimento próprio; silencioso, pois não apresenta nenhuma finalidade exceto em si mesma.

   O gesto da natureza, ou seja, o movimento que cria ao sentido passivo da visão, o devaneio, é, então, manifestado pela percepção do seu movimento físico, material da natureza:

   [...] lá o ruído das vagas e a agitação da água fixando meus sentidos e expulsando de minha alma qualquer outra agitação, a mergulhavam num devaneio delicioso, em que à noite me surpreendia muitas vezes sem que o tivesse percebido.(Rousseau, 1986, P.75).

   A agitação das águas o trazia para sua atenção, entrelaçando-o pelos sentidos, e condicionando-o a ausência de percepção do tempo e espaço, surpreendido pela aparição da noite.

   Além do gesto, a natureza lhe trazia o silêncio, a propriedade de não haver nenhuma finalidade senão a sua própria existência. O deleite, pois, não tem nenhum objeto bem determinado (1986, P.74). A palavra objeto refere-se ao esvaziamento de toda e qualquer função ou costume mediado pela racionalidade. Eis, portanto, a relação do homem com a natureza e a sociedade. Enquanto a primeira não exige nada senão a afirmação da sua existência e do seu encanto, a segunda, está estritamente associada à vida social, às convenções.

   Adiante, Rousseau descrevendo os encantos e deleite que a ilha lhe proporcionara, revela uma característica específica da experiência do devaneio:

   O fluxo e o refluxo dessa água, seu ruído contínuo, mas crescente por intervalos, atingindo sem repouso meus ouvidos e meus olhos, supriam os movimentos internos que o devaneio extinguia em mim e bastavam para me fazer sentir com prazer minha existência sem ter o trabalho de pensar. (1986, P.75).

   O devaneio extingue os movimentos internos, isto é, o homem embevecido perante a natureza tal como é, permite que seja absorvido, esvazia-se e, por conseguinte, é preenchido pelo ruído e o fluxo das águas, através dos sentidos da audição e visão. Podemos observar o aspecto cíclico do devaneio, pois este, ao mesmo tempo em que retira do homem o seu movimento interno, o recompõe suprindo, através dos sentidos, sua ausência de movimento interno, retribuindo-lhe o necessário para que pudesse sentir o prazer da existência.

   Embora Rousseau privilegiasse o gesto em detrimento da voz, no capítulo II, do livro Ensaio sobre as origens das línguas, há uma tomada de posição inversa: a palavra e a voz passam a ocupar um posto privilegiado em relação ao gesto. A voz, segundo Rousseau, originou-se das paixões humanas, cujos povos primitivos criaram seus primeiros laços de união. O gesto, então, torna-se resultado das necessidades humanas.

   Ademais, a voz, sendo resultante das paixões humanas, é sugerida por Rousseau como proveniente das primeiras línguas que seriam figuradas, (2008, P.103). Logo, as línguas sendo figuradas, proveriam particularmente da cultura oral dos poetas.

(Continua)


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