domingo, 17 de julho de 2011

A natureza dos sentidos em Rousseau e Hoffmann. (Parte 2).



   Tratado dos aspectos mais gerais da obra de Rousseau passemos, portanto, para a obra de Hoffmann, em sua obra intitulada Contos fantásticos, destacando entre elas, o conto O homem da areia, no qual podemos traçar uma análise comparativa com as obras de Rousseau.

   O termo fantástico, segundo Todorov, no seu livro Introdução à literatura fantástica se divide em dois gêneros, o maravilhoso e o estranho, (Todorov, 2007 P.48). O maravilhoso, seguindo a concepção de Todorov, é tudo aquilo que é sobrenatural, porém aceito, ou seja, aquilo que expressa uma relação referente com a realidade possível, enquanto o estranho se fundamenta sempre sob uma explicação racional, pois sua característica mística ou misteriosa quase sempre suscita uma investigação que caminha para ordem do “provável”.
   No homem da areia, o personagem e narrador Natanael, expõe, mediante epístolas, um fato marcante da sua vida que o acompanhou desde sua infância até sua fase adulta: A história do homem da areia. O homem da areia, sendo de fato uma história ficcional que sua mãe criara para persuadir o filho a ir para cama na hora de dormir, foi, durante toda vida de natanael tomado como uma entidade real, personificada na figura do medonho advogado Coppelius.

   Levi Strauss, em seu livro intitulado antropologia estrutural, investigando o fenômeno das bruxas na idade média, estabeleceu duas características fundamentais do comportamento psicológico das pessoas que acreditavam em bruxaria: A primeira é a crença do individual na eficácia da bruxaria, consciente de ser vitimo de um malefício, e a segunda é a crença social que consolidava a certeza da existência das bruxas. (Strauss, 1973, P.193).

   No caso do conto de Hoffmann, Natanael estava convicto na eficácia funesta do homem de areia, apesar de não haver nenhum compartilhamento social que a legitimasse. As imagens aterradoras do advogado coppelius, e as imagens do lago de fogo, e, sobretudo, as ameaças de que lhe poderiam retirar seus olhos, destacam os devaneios de natanael como que manifestados de forma diversa ao devaneio da ilha de “saint-pierre”: Não mais a natureza, pelo seu gesto suscita o devaneio, mas sim, a visualidade criada pela consciência de Natanael.

   A consciência de natanael, através da visão do homem de areia, o torna artífice de si mesmo: Enquanto o devaneio para Rousseau eliminava seus movimentos internos, e afirmava a sua existência através dos “ruídos das águas”, que lhe preenchia por meio dos sentidos; em natanael toda sua existência é preenchida pelo seu artífice imagético. A natureza para Natanael é indiferente: O que cria o encanto são as suas expectativas situadas naquilo que ver.

   Essa característica torna-se patente quando, Olímpia, uma boneca de madeira, torna-se o objeto da sua paixão. Se a paixão em Rousseau criara a união entre os homens (2008, P.103), no Homem da areia, a paixão é isoladora; não estabelece laço algum nem se manifesta pela voz ou pela língua. O trecho da carta de Clara, (sua futura esposa) a natanael (Hoffmann, 1993, P.122), exclamativa e afetuosa, revela a tentativa da afirmação da língua como paixão, que, contudo, está sempre posta em plano inferior, predominando, no mais das vezes, os componentes da visualidade.

   Clara, no entanto, representa a racionalidade, a lógica, é precisamente límpida. Freqüentemente emprega esforços para dissuadir Natanael da idéia do Homem de areia. A clareza de clara, e sua propensão à racionalidade culminam em um evidente conflito entre o casal em todo decorrer da narrativa. Um trecho em que esse conflito é exposto, cuja negação da realidade e da racionalidade por natanael se chocam com a transparência de clara, é na carta de Natanael a lotar:

   Ela me escreveu uma carta bastante grave e filosófica, na qual demonstra pormenorizadamente que Coppellius e Coppola só existem em minha mente e são fantasmas de meu eu que se pulverizarão no momento em que reconhecê-los como tais. (Hoffmann, 1993, P.125).
  
   O termo empregado por Natanael, pormenorizamente demonstra a natureza lógica de clara, a qual tanto lhe aborrece. Não obstante, em outro diálogo, Clara alude novamente a sua personalidade alienante:

   “Mas querido natanael”, comentou clara depois de uns instantes de atenção, “se eu dissesse que você é o príncipio do Mal que tem efeitos hostis sobre o meu café? Pois se eu, como você quer, deixasse tudo de lado e, durante sua conferência, o olhasse nos olhos, o café acabaria por derramar no fogo, e então ninguém teria café da manhã!” (1993, P.130).

   A situação ilustra com clareza a recusa da realidade empregada por Natanael, o mundo existente é a mera construção perceptiva da sua visão. Esse solipsismo ganha maior força na descrição do olhar da boneca Olímpia cujos olhos faiscantes do espelho do riacho de águas claras, lhe fitavam (1993, P.137). A metáfora do espelho do riacho de águas claras remete ao desejo narcísico das suas expectativas refletidas como um espelho, e dos seus desejos límpidos e harmoniosos como o riacho de águas claras. Enquanto que em Rousseau o solitário significa o homem que se refugia na natureza, em O homem da areia, a solidão significa refugiar-se no próprio Ego.

   Decerto, todos esses aspectos se apresentam insuficientes diante da força mística que o conto de Hoffmann nos proporciona. Embora a obra corresponda ao maravilhoso e ao estranho, a predominância do segundo mantém o elo com aquilo que torna a literatura fonte inesgotável: a busca pelo desvendamento daquilo que é oculto, não-familiar, e supra-racional.




                 Bibliografia


STRAUSS, Lévi. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1973.

HOFFMANN, E.T.A. in: Contos Fantásticos. Trad. Claudia Cavalcanti. Rio de Janeiro, 1993.

ROUSSEAU, Jean – Jacques. Ensaio sobre a origem das línguas. Campinas: Editora da unicamp, 2008, terceira edição.

ROUSSEAU, Jean – Jacques. Os devaneios do caminhante solitário. Brasília: Ed. Da universidade de Brasília, 1986.

TODOROV, tovetan. In: Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2007, 3º edição, 1º impressão.

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