segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Saussure e os aspectos gerais do conceito de língua

   A língua é uma forma de identificar e interpretar tudo que há de externo, é a forma de estabelecer uma relação ante a realidade, para o homem, quando as coisas são nomeadas. Estes nomes nos permitem compreender a realidade a partir de nossas percepções. No entanto, isso não quer dizer que a língua é uma nomenclatura que explica uma realidade preexistente, como diz Fiorin, mas uma maneira de organizar e classificar o mundo a partir de um determinado olhar; olhar esse que varia de cultura a cultura. Podemos perceber, basicamente, que a língua não nomeia a essência das coisas como elas são, muito menos uma realidade pré-determinada quando fazemos uma comparação da nossa língua materna com outras línguas estrangeiras, por exemplo: A palavra mesa em italiano significa tavola, e em inglês, table; ou janela em italiano significa finestra, e em inglês, Windows. Isso leva-nos crer que a língua e o modo como a organizamos para interpretar a realidade é construída por meio de processos históricos e convenções, que delimitam suas normas e usos em uma dada sociedade. Contudo, para existir uma língua, antes de qualquer coisa, terá que existir um signo, como definiu Sausssure, e para que se estabeleça esse signo é necessário que um conceito esteja atrelado com uma imagem acústica, e que, mediante essa fórmula, se determine o signo, que é a unidade mínima de significação.
   A imagem acústica diz respeito ao som imaterial e não-físico, ao som que articulamos mentalmente, quando pensamos em alguma coisa, recitamos algo ou falamos a nós mesmos sem sequer movermos a boca ou a língua; o conceito diz respeito à idéia que ela detém, à sua significação. Nesse caso, a imagem acústica seria substituída pelo termo significante e o conceito pelo termo significado, e que um necessita do outro; só a partir dessa união que se estabeleceria o signo, a unidade mínima de significação. Então, só a partir dessa fórmula substancial o signo se torna uma entidade concreta, pois se retirássemos o elemento significante ou o elemento significado, ela se tornaria algo incompleto, algo inexistente. No caso a palavra em latim paupertas não poderia constituir um signo, porque nesta palavra temos o seu significante, mas não temos o seu significado. Porém, se adquiríssemos a idéia de que paupertas significa pobreza, então passaríamos a considerar essa palavra como um signo.
                            
Delimitação Do Signo

   A associação do significante com o significado, afirma a existência do signo, porém, Saussure nos propõem uma delimitação do signo, afirmando que o signo é uma forma indistinta e que sua disposição e significação não seriam necessários para uma delimitação de seu valor semântico de antemão. E o método proposto seria separar a unidade do contexto e verificar se o seu sentido é o mesmo ou se há alterações, concluir qual deva ser o significado adequado. Podemos fazer uma análise, a partir desse método, do termo bala, colocando-o nas seguintes frases: “eu achei essa festa muito bala” e “esta bala estava deliciosa”. Vemos que o sentido da palavra bala não é o mesmo nas duas frases, pois na primeira a palavra tem o sentido de bom, agradável e por isso poderia ser determinada como adjetivo; na segunda esse termo assume a forma de substantivo, pois seu significado se equivaleria ao sentido de doce. Ademais, Sausurre nos alerta quanto à dificuldade delimitação, por exemplo, de algumas palavras compostas como caixeiro-viajante e em palavras mais complexas em que se percebem subunidades como nos casos de sufixos que se ligam a adjetivos para formarem substantivos: cruel mais o sufixo -dade para compor o termo crueldade ou o sufixo -eza mais o adjetivo belo ou rico, para formar as palavras beleza e riqueza. E, além disso, as locuções, as formas de flexão etc. contribuiriam para uma dificuldade maior de delimitação.



A Arbitrariedade do signo

   Neste ponto, Sausurre nos revela que o signo é arbitrário, pois não há nenhuma relação de lógica na escolha do significado e significante. E que por isso, ela seria uma convenção. Uma vez estabelecida essa convenção, ficaria valendo como contrato entre os falantes de determinada língua. Todavia, o próprio sausurre nos aponta que nem sempre o signo é totalmente arbitrário, mas que pode ser motivado. E essa motivação consiste nos termos compostos ou derivados, como o exemplo de Mattoso Câmara, em A língua e seu conceito, no caso da palavra motorista, que é constituída pelo sufixo –ista e o radical motor, e que essa união designa uma profissão (analista, por exemplo) ou simplesmente a atividade (no caso da palavra motorista em que o homem exerce a função de colocar o motor em movimento ou de simplesmente dirigir o carro.) de exercer uma função. Temos outros casos, também, de palavras derivadas que são constituídas através da arbitrariedade motivada como pedreiro, jardineiro, porteiro e etc. Isso nos leva a compreender que a natureza arbitrária absoluta se perde a partir da multiplicação de signos, pois as variedades destes, geralmente permitem associações entre dois ou mais signos distintos para criar uma nova unidade, um novo significado. Além disso, o signo tem outra característica principal que é a linearidade do significante . Segundo Saussure o falante de uma língua processa, quando a articula pela oralidade ou escrita, uma cadeia lógica de signos que se organizam sucessivamente. A essa hipótese é denominada a linearidade do significante, pois à disposição dos signos sucedem da imagem acústica.


A Imutabilidade e Mutabilidade Do Signo

   Nesta concepção, a imutabilidade consiste em uma convenção arbitrária, e, uma vez estabelecida esta convenção, ficaria valendo para todos os falantes de uma dada língua. E o tempo e a tradição seriam os principais responsáveis pela conservação da língua. No entanto, Saussure aborda que o tempo, tendo a função de conservá-la, também tem a função de modificá-la. Daí vem à concepção contraditória entre a imutabilidade e mutabilidade do signo, pois o tempo tanto tem a função de assegurar uma língua e fixá-la, como também é capaz de modificá-la. Mas a mutabilidade do signo não reside somente no tempo; cumpre haver outro fator que possibilite a mudança: a massa social. Uma vez estabelecida à língua como convenção, ela deixa de pertencer a quem arbitrou, e passa a ficar exposta a toda massa social. E essa massa social, essa interação contínua da língua entre os indivíduos, vinculada ao processo de transformação do tempo, permite que a língua se modifique ininterruptamente, sobretudo no que concerne à oralidade, que é mais suscetível de mudanças do que a modalidade  escrita.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Alegoria e parábola em Melville e Kafka.(parte 2)

Vistos os elementos mais gerais da obra de Melville, passemos adiante para a obra do grande escritor Franz Kafka, o qual escreveu seu pequeno conto denominado na colônia penal.

A narrativa da colônia penal, assim como em Billy Budd, é constituída por parábola. Contudo, podemos perceber alguma espécie de doutrina, mas que no caso ela estaria manifestada de forma latente, ou mesmo apresentada em fragmentos intransponíveis. Kafka, pois, descreve imparcialmente a conduta humana e o seu lugar na existência.

A narrativa que se sucede, consiste no diálogo entre um antigo oficial e um explorador estrangeiro sobre uma antiga máquina de tortura, e sua eficácia na execução da justiça através da mesma.

Na narrativa de a colônia penal, do contrário ao que foi visto em Billy Budd, a concepção de tipo se esvaece, dando lugar apenas para nomenclaturas de cargos ou ofício, que tomam por completo a existência dos personagens, reduzindo-lhes a meros rótulos. Além disso, a relação do belo associado à natureza ingênua em Billy Budd, desaparece completamente, dando lugar apenas a uma forma de “estetização da máquina”, cuja descrição é feita minuciosamente, de partes específicas da mesma.

A máquina é o ponto nuclear da narrativa do conto de Kafka, que se sobrepõe à descrição física dos personagens, na qual comumente estão características que realçam uma realidade áspera destes, como vemos a seguir:

[..] O condenado, uma pessoa de ar estúpido, boca larga, cabelo e rosto desalinho.(Kafka, 1998, P.29).

 A ingenuidade do condenado torna-se, (diferentemente do que é considerado em Billy Budd), uma qualidade pejorativa, e a boca, cabelo e rosto revelam a assimetria física do condenado, destituindo-o de qualquer dimensão estética. Mais adiante, a comparação com a subserviência canina, tem como princípio, o reforço do aspecto repulsivo do condenado:

Aliás, o condenado parecia de uma sujeição tão canina que a impressão que dava era a de que se poderia deixá-lo vaguear livremente pelas encostas, sendo preciso apenas que se assobiasse no começo da execução para que ele viesse.(Kafka, 1998, P.29-30).

A associação com o cão, complementada pela palavra qualificadora sujeição, dá ênfase ao caráter subalterno do condenado e da sua plena alienação.

Essa alienação torna-se patente quando são explicitados os motivos pelos quais o condenado foi levado à tortura, da qual sem qualquer meio de defesa, seria “devidamente” punido. Esse aspecto da justiça em Kafka corresponde a uma mecanização da justiça, onde as forças possíveis aplicadas na efetivação dela refletir-se-iam num simples jogo de interesse da manutenção da velha máquina de tortura. É claro, em um dos trechos onde o oficial descreve com entusiasmo o funcionamento da máquina, o projeto de supressão de uma justiça humana, substituída pela promessa futura de justiça mecânica:

- Mas agora venha ver este aparelho – acrescentou logo em seguida, enxugando as mãos com uma toalha enquanto apontava para o aparelho. – até esse instante era necessário o trabalho das mãos, mas daqui pra frente ele funciona completamente sozinho.(Kafka, 1998, P.30).

A promessa futura na eficácia de uma justiça executada pela máquina é o principal intento do oficial, que, em todo o transcorrer da narrativa tenta persuadir o explorador da eficiência dos velhos meios de condenação. Essa relação entre o novo modelo de justiça em oposição ao velho modelo estabelece um conflito entre presente e passado, onde a defesa do passado só pode ser restabelecida através da grande adesão social e da memória revivida no presente.

O oficial era, portanto, a luz fugaz e frágil que mantia viva a velha justiça, através da memória do idealizador e construtor da máquina: O comandante.

Ao perceber, então, a iniqüidade dos seus métodos de justiça e a recusa geral que a ela se fazia, libertou o condenado da sua punição, despiu-se e pôs-se na máquina (Kafka, 2008, P.64). A figura emblemática do sacrifício, na colônia penal, estar, portanto, ligado a autopunição mecanizada, fundamentada na própria desumanidade e furor com que a máquina a realiza indiferentemente.

Um outro fato importante é que o condenado só poderia deitar-se nu, talvez porque, como a nudez fosse a constatação da vergonha e do pecado de Adão e Eva no livro do gênesis, Kafka visse nela o mais nítido comportamento do sentimento de culpa, e da condição existencial do homem perante à justiça.

Após o falecimento do oficial, numa das casas de chá, onde estava enterrado o comandante, ao qual tanto lhe admirava, estava inscrito numa lápide próximo ao túmulo, um trecho ao qual faz referencia ao milagre da ressurreição da carne:

“Aqui jaz o antigo comandante. Seus adeptos, que agora não podem dizer o nome, cavaram-lhe o túmulo e assentaram a lápide. Existe uma profecia segundo a qual o comandante, depois de determinado número de anos, ressuscitará e chefiará seus adeptos para a reconquista da colônia. Acreditai e esperai”.

A conclusão do conto, termina com uma clara referência aos textos bíblicos, retomando, as noções de fé e de devoção na crença do restabelecimento do velho regime. Esse pequeno trecho retomado ao fim do conto, ironiza tanto a precariedade dos anseios da humanidade em geral de reerguer sistemas sucumbidos, como a espécie de "aviso" que se faz em relação àqueles que são adeptos, ou seja, o resurgimento de velhos sistemas pelo vigor com que eles se mantém no imaginário dos adeptos. Dentre essas interpretações, a obra de Kafka, distante de refletir a parábola no seu aspecto tradicional, sempre será fonte de interpretação inesgotável e de enigmas indecifráveis.





Blibliografia

ROUSSEAU, Jean – Jacques. Os devaneios do caminhante solitário. Brasília: Ed. Da universidade de Brasília, 1986.

Kafka, Franz. In:  o veredicto na colônia penal. São Paulo: companhia das letras, 1998.

Merquior, José Guilherme. Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin. Rio: tempo brasileiro, 1969.

Melville, Herman. Billy Budd. São Paulo: cosac & naify, 2003

Bíblia sagrada.