sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Alegoria e parábola em Melville e Kafka.(parte 2)

Vistos os elementos mais gerais da obra de Melville, passemos adiante para a obra do grande escritor Franz Kafka, o qual escreveu seu pequeno conto denominado na colônia penal.

A narrativa da colônia penal, assim como em Billy Budd, é constituída por parábola. Contudo, podemos perceber alguma espécie de doutrina, mas que no caso ela estaria manifestada de forma latente, ou mesmo apresentada em fragmentos intransponíveis. Kafka, pois, descreve imparcialmente a conduta humana e o seu lugar na existência.

A narrativa que se sucede, consiste no diálogo entre um antigo oficial e um explorador estrangeiro sobre uma antiga máquina de tortura, e sua eficácia na execução da justiça através da mesma.

Na narrativa de a colônia penal, do contrário ao que foi visto em Billy Budd, a concepção de tipo se esvaece, dando lugar apenas para nomenclaturas de cargos ou ofício, que tomam por completo a existência dos personagens, reduzindo-lhes a meros rótulos. Além disso, a relação do belo associado à natureza ingênua em Billy Budd, desaparece completamente, dando lugar apenas a uma forma de “estetização da máquina”, cuja descrição é feita minuciosamente, de partes específicas da mesma.

A máquina é o ponto nuclear da narrativa do conto de Kafka, que se sobrepõe à descrição física dos personagens, na qual comumente estão características que realçam uma realidade áspera destes, como vemos a seguir:

[..] O condenado, uma pessoa de ar estúpido, boca larga, cabelo e rosto desalinho.(Kafka, 1998, P.29).

 A ingenuidade do condenado torna-se, (diferentemente do que é considerado em Billy Budd), uma qualidade pejorativa, e a boca, cabelo e rosto revelam a assimetria física do condenado, destituindo-o de qualquer dimensão estética. Mais adiante, a comparação com a subserviência canina, tem como princípio, o reforço do aspecto repulsivo do condenado:

Aliás, o condenado parecia de uma sujeição tão canina que a impressão que dava era a de que se poderia deixá-lo vaguear livremente pelas encostas, sendo preciso apenas que se assobiasse no começo da execução para que ele viesse.(Kafka, 1998, P.29-30).

A associação com o cão, complementada pela palavra qualificadora sujeição, dá ênfase ao caráter subalterno do condenado e da sua plena alienação.

Essa alienação torna-se patente quando são explicitados os motivos pelos quais o condenado foi levado à tortura, da qual sem qualquer meio de defesa, seria “devidamente” punido. Esse aspecto da justiça em Kafka corresponde a uma mecanização da justiça, onde as forças possíveis aplicadas na efetivação dela refletir-se-iam num simples jogo de interesse da manutenção da velha máquina de tortura. É claro, em um dos trechos onde o oficial descreve com entusiasmo o funcionamento da máquina, o projeto de supressão de uma justiça humana, substituída pela promessa futura de justiça mecânica:

- Mas agora venha ver este aparelho – acrescentou logo em seguida, enxugando as mãos com uma toalha enquanto apontava para o aparelho. – até esse instante era necessário o trabalho das mãos, mas daqui pra frente ele funciona completamente sozinho.(Kafka, 1998, P.30).

A promessa futura na eficácia de uma justiça executada pela máquina é o principal intento do oficial, que, em todo o transcorrer da narrativa tenta persuadir o explorador da eficiência dos velhos meios de condenação. Essa relação entre o novo modelo de justiça em oposição ao velho modelo estabelece um conflito entre presente e passado, onde a defesa do passado só pode ser restabelecida através da grande adesão social e da memória revivida no presente.

O oficial era, portanto, a luz fugaz e frágil que mantia viva a velha justiça, através da memória do idealizador e construtor da máquina: O comandante.

Ao perceber, então, a iniqüidade dos seus métodos de justiça e a recusa geral que a ela se fazia, libertou o condenado da sua punição, despiu-se e pôs-se na máquina (Kafka, 2008, P.64). A figura emblemática do sacrifício, na colônia penal, estar, portanto, ligado a autopunição mecanizada, fundamentada na própria desumanidade e furor com que a máquina a realiza indiferentemente.

Um outro fato importante é que o condenado só poderia deitar-se nu, talvez porque, como a nudez fosse a constatação da vergonha e do pecado de Adão e Eva no livro do gênesis, Kafka visse nela o mais nítido comportamento do sentimento de culpa, e da condição existencial do homem perante à justiça.

Após o falecimento do oficial, numa das casas de chá, onde estava enterrado o comandante, ao qual tanto lhe admirava, estava inscrito numa lápide próximo ao túmulo, um trecho ao qual faz referencia ao milagre da ressurreição da carne:

“Aqui jaz o antigo comandante. Seus adeptos, que agora não podem dizer o nome, cavaram-lhe o túmulo e assentaram a lápide. Existe uma profecia segundo a qual o comandante, depois de determinado número de anos, ressuscitará e chefiará seus adeptos para a reconquista da colônia. Acreditai e esperai”.

A conclusão do conto, termina com uma clara referência aos textos bíblicos, retomando, as noções de fé e de devoção na crença do restabelecimento do velho regime. Esse pequeno trecho retomado ao fim do conto, ironiza tanto a precariedade dos anseios da humanidade em geral de reerguer sistemas sucumbidos, como a espécie de "aviso" que se faz em relação àqueles que são adeptos, ou seja, o resurgimento de velhos sistemas pelo vigor com que eles se mantém no imaginário dos adeptos. Dentre essas interpretações, a obra de Kafka, distante de refletir a parábola no seu aspecto tradicional, sempre será fonte de interpretação inesgotável e de enigmas indecifráveis.





Blibliografia

ROUSSEAU, Jean – Jacques. Os devaneios do caminhante solitário. Brasília: Ed. Da universidade de Brasília, 1986.

Kafka, Franz. In:  o veredicto na colônia penal. São Paulo: companhia das letras, 1998.

Merquior, José Guilherme. Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin. Rio: tempo brasileiro, 1969.

Melville, Herman. Billy Budd. São Paulo: cosac & naify, 2003

Bíblia sagrada.
 




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