terça-feira, 22 de novembro de 2011

Uma breve análise do soneto de Álvares de Azevedo.

O soneto Pálida à luz da lâmpada sombria, de Álvares de Azevedo, apresenta alguns indícios que são próprios da segunda fase do romantismo, denominada mal do século. O receio de amar e o sofrimento vivido pela idealização do eu-lírico, para com a mulher amada, o fazem recorrer ao desejo da "morte", como forma de fuga resoluta para seus problemas amorosos.

À início de análise, faremos brevemente uma pequena consideração da estrutura formal que será apresentada, isto é, das rimas e do rítmo:

Pálida À luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando
Negros olhos as pálpebras abrindo
Formas nuas no leito resvalando

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!

A estrutura rítmica é regular, apresentando um número de dez sílabas em todos os versos, isto é, um soneto decassílabo. As rimas também apresentam grande regularidade, com uma pequena alteração nas duas últimas estrofes. O primeiro e quarto verso da primeira e segunda estrofe rimam em -ia, enquanto que o segundo e terceiro verso da primeira e segunda estrofe rimam em -ada. Já na penúltima estrofe há o seguinte esquema de rimas em -ando,-indo e ando; enquanto que na última estrofe há o fenômeno inverso se compara à penúltima, -ando fica entreposto a -indo, assinalando a estrutura de rima do terceto em -indo, -ando e -indo.

Vistos os elementos formais fundamentais, segue-se a análise semântica do poema.

No primeiro verso da primeira estrofe, a mulher amada é descrita pela sua palidez, que se opõe à sombria lâmpada que a ilumina. A brancura expressa da amada, juntamente com a obscuridade atribuída, oferece uma visualidade fúnebre, cujo reforço a esse aspecto torna-se patente no segundo verso da primeira estrofe, no qual a amada dorme sobre o leito de flores reclinada.

No terceiro verso da primeira estrofe a comparação da lua embalsamada pela noite, pode enunciar dois sentidos diversos, mas que não se excluem: A palavra “embalsamar” pode denotar sentido de exalar bom cheiro, impregnar-se de perfume, mas também pode expressar um sentido mais fúnebre: Embalsamar pode significar “preparar o cadáver para resistir à corrupção ou deterioração”. Dos dois sentidos diversos expostos podemos interpretar que há um sentido comum entre eles, e que podem ser tomados na acepção de conservação, quer do corpo, quer da beleza da amada. No entanto, no contexto em que o poema se expressa, o sentido apropriado seria o de perfumar-se, para relacionar-se coerentemente com o leito de flores, o qual exala aromas próprios das mesmas.

Nos dois primeiros versos da segunda estrofe são descritas a calma e a harmonia da amada, que é embalada pela maré das águas. O termo embalada remete ao sentido de balançar, tal como se faz às crianças, balançando-as no colo para se acalmar ou adormecer. Mais adiante é exposto o aspecto angelical da amada que se banhava em sonhos. Os esquemas metafóricos da segunda estrofe aludem a uma leveza e harmonia, apontados pelo balanço das águas que embala a amada. Além disso, no último verso da segunda estrofe que em sonhos se banhava e se esquecia, indica uma interpretação onde é possível perceber uma certa ambigüidade entre o que é real e o que é onírico: A amada se banhava e se esquecia nas águas do mar, em relação aos sonhos, ou seja, em relação ao devaneio criado pelo eu-lírico.

Contudo, o erotismo com o qual a amada é descrita comprova sua existência concreta e até mesmo antagônica se compararmos com as estrofes anteriores, as quais apresentam menos apelo erótico. Um dos traços desse antagonismo é o emprego da figura angelical atribuída à amada, e ao mesmo tempo a recorrência explícita à sexualidade e ao erotismo.

Após a quarta estrofe em que é descrita a amada acordando, sensualmente, e revelando a beleza através das formas nuas, o eu-lírico, por fim, responde-lhe, em tom de preocupação, para que não se ria dele, pois velou as noites chorando. Esse penúltimo verso da última estrofe revela, por parte do eu-lírico, um sentimento de exagerada emoção, que denota em geral, um sentimentalismo retórico, ao qual é possível inferir que seu uso seja para fins de apropriação ou estilístico (no caso da necessidade mesma dos românticos em destacarem a emoção, como traço característico do período). Também, no último verso da última estrofe, é ressaltada a superficialidade com que o sentimentalismo é usado, o que, portanto, realça seu uso para fins estilísticos.

A hipótese mais provável, que possa justificar o sentimentalismo como instrumento estilístico é a tensão entre erotismo e angústia sexual. Quando a amada acorda do seu profundo sono, resvalando as suas formas, é possível, em uma intuição mais geral, a suposição da possibilidade do eu-lírico concretizar seus anseios amorosos pela conquista do objeto amado. Porém, o eu-lírico não elimina a tensão erótica com a angústia sexual: Ele a reforça pelo uso do sentimentalismo exacerbado, tendo como ato definitivo desse ressalto a fuga do amor pela morte.

O eu-lírico, portanto, morrerá nos sonhos,ou seja, a morte se apresenta como mera figura de linguagem, colocando a questão do medo de amor como simples recurso do traço sentimentalista, estabelecendo, assim, uma espécie de contemplação amorosa permanente, que desconstrói a associação hipotética entre o medo de amar, como sendo um reflexo da vida biográfica do poeta Álvares de Azevedo. O que constata, portanto, que a geração a que Mário de Andrade denomina “geração amor e medo”, é uma nomenclatura para exprimir as características e recursos lingüísticos comuns que alguns poetas românticos usavam, para fins puramente estilísticos.