domingo, 4 de dezembro de 2011

Sobre as correntes antagônicas: Parnasianismo e Modernismo.

As duas correntes antagônicas (parnasianismo e modernismo) só podem ser avaliadas em suas concepções distintas e particularidades, a partir da análise das obras mais gerais desses dois movimentos, a fim de delimitar suas características tão opostas entre si. Em face dessa pretensão, o poema A um poeta de Olavo Bilac visa mostrar-nos o que se poderia considerar como sendo uma síntese das características mais gerais da corrente parnasiana, assim como o poema Poética de Manuel Bandeira, que virá, posteriormente, sintetizar os aspectos comuns da corrente modernista.

Passemos, portanto, à análise do soneto a um poeta de Olavo Bilac:

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço: e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica mas sóbria, como um templo grego

Não se mostre na fábrica o suplicio
Do mestre. E natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

Em uma primeira análise, podemos perceber que a estrutura formal do poema é rigidamente metrificada de modo regular, contando com um número de dez (decassílabo) sílabas. A estrutura homófona se constitui pela intercalação na primeira e segunda estrofe, havendo, portanto, uma coincidência de rimas: O primeiro verso rimando em –ua com o quarto, e o segundo verso rimando em –ego com o terceiro. Na segunda estrofe ocorre a mesma coincidência fônica, porém invertendo-lhes, resultando: -ego no primeiro e quarto verso e –ua no segundo e terceiro verso.

No primeiro terceto há a estrutura homófona “-cio, -ade e -cio”, a qual inverte no último terceto em “-ade, -cio e -ade”. Há, portanto, uma sistemática estrutura de rimas e uma rígida regularidade métrica nos versos. Além disso, ao longo dos versos percebe-se o emprego das rimas ricas, como nos casos das palavras emprego (substantivo) que rima com grego (adjetivo), ou então rua (substantivo) que rima com sua (verbo).

Essa preocupação com os aspectos formais (a escolha do soneto, a regularidade métrica, as rimas ricas, etc.) é uma característica que vigorou no parnasianismo, visto como forma prestigiada a ser usada.

Os elementos semânticos contribuem, também, não menos para uma maior abrangência dos traços parnasianos. Logo de início o eu-lírico afirma seu auto-isolamento, longe do estéril turbilhão da rua, isto é, a movimentação, a turbulência, típica dos processos de urbanização do século XX, não seriam atributos de criação poética, pois são “estéreis”. O contraposto disso é o sossego, o aconchego no claustro, única condição necessária à criação poética: o refúgio à interioridade.

Se a interioridade, o “isolar-se” do mundo constitui o movimento da primeira estrofe do soneto, adiante se manifesta a plasticidade, na segunda estrofe, na qual fica nítido o esforço construtivo, porém intencionalmente ocultado, da poesia. O poeta a constrói como objeto desvinculado de si mesmo, em busca das formas consideradas “puras” e das palavras raras. Dessa fórmula pode-se, assim, disfarçar o emprego do esforço.

Além disso, há ainda o aspecto da retomada dos valores clássicos, com os quais serão aludidos no poema às comparações ao tempo grego, e à nudez (que representa a harmonia da forma) e a referência a que se faz da beleza, nos moldes platônico como o instrumento único da busca pela verdade.

Em síntese, vimos que o soneto de Olavo Bilac contém as características mais gerais do poema: a regularidade da métrica e da rima, a busca por estruturas formais de prestígio (no caso o soneto, as rimas ricas); o isolamento do mundo, a objetividade e o  racionalismo que se revelam na plasticidade, a retomada ou referência ao modelo/cultura clássica greco-romana, etc.

Vistos os aspectos gerais do parnasianismo através da breve análise do soneto de Olavo, o poema seguinte condiz ao poeta modernista 1º fase, Manuel Bandeira, a fim de delimitar suas características gerais e justificar seu antagonismo através da análise do poema Poética

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Uma primeira percepção imediata é em relação à estrutura formal do poema. Os versos são livres e brancos, sem regularidade métrica e rítmica. Essas características se refletem na idéia há muito defendida pelos modernistas, da “livre manifestação artística”, recusando as formas que eram consideradas prestigiadas (o soneto, as rimas e as estruturas complexas) pelos parnasianos. A sintaxe, por exemplo, apresenta-se em alguns versos de maneira mais alongada, e em outros de maneira mais simples, reduzida apenas a um sintagma nominal, como se pode conferir no décimo segundo, décimo terceiro e décimo quarto verso.

Ademais, podemos perceber que os versos não se concatenam em tópicos ou idéias que se conectam, mas num conjunto imagético desmembrado com o qual o leitor terá de construí-las a partir da leitura. Essa estrutura não-linear foi fortemente influenciada pelos expressionistas e surrealistas, os quais procuravam manifestar-se através dos recortes e das distorções propositais em suas criações artísticas, sobretudo na pintura. Mas não só a estrutura formal se contrapõe ao ideário parnasiano, mas também o seu conteúdo semântico, pelo qual se depreende uma recusa pujante em tom de grande ironia dos modelos anteriores do “fazer-se” poesia.

Logo a início o eu-lírico torna patente o seu objeto de desprezo: O lirismo comedido, regulado, numa clara oposição a busca dos parnasianos por formas complexas e puras, que contribuiriam a um fechamento da poesia a questões consideradas superficiais, afastando o poeta da realidade brasileira.

As sintaxes de exceção, o lirismo namorador, e, sobretudo os versos de sintagmas nominais como político, raquítico e sifilítico, demonstram não somente a recusa mas o tom irônico e irreverente, uma marca fundamental dos modernistas, como meio de ruptura de uma visão sisuda da poesia.

Contudo, em meio uma decorrência de versos que clamam a recusa veemente do antigo modelo, os cinco versos finais apresentam, de modo claro, tanto a resolução na exigência de uma liberdade artística como uma síntese metafórica dos ideais modernistas. O verso quero antes o lirismo dos loucos, ou o lirismo dos bêbados, pode ser interpretado como a manifestação poética de quem não segue normas, como o fazem os loucos ou uma clara recorrência característica à inconsciência, expressada na privação da racionalidade, experimentada pelos bêbados em estado de embriaguez. Ou até mesmo o lirismo dos clowns de Shakespeare, referência direta ao caráter iconoclasta, instrumento com o qual poderia romper com todo o decoro e rigidez que compõem a poesia clássica.

O poema poética expressa em si seus valores de ruptura e libertação em relação aos seus antigos modelos. Existe em face da afirmação antagônica ao movimento antecessor, se aproximando do mundo, da realidade brasileira, e com a qual se consolida como manifestação poética. Consiste de uma linguagem maleável, simples, que denota uma preocupação com registros diversos, de diferentes camadas sociais. Ao contrário dos parnasianos, a poesia modernista não se isola do mundo, faz-se do estar no mundo matéria poética.