domingo, 29 de janeiro de 2012

Poesia de imitação, expressão e construção.


A poesia de imitação se estabelece com a retomada dos valores clássicos, que determinam a cópia como paradigma prestigioso a ser seguido. Tendo como veio a concepção aristotélica da qual a literatura é imitação das ações humanas, tanto o classicismo como o neoclassicismo se regem pela fidelidade à cópia, do punhado imaginário-literário que deve ser retomado em cada obra, se erigindo como modelo permanente, sólido e imutável.

No contexto do século XVIII o caráter racionalista ressonante do iluminismo fez com que os poetas árcades colocassem a natureza como elemento-reflexo da verdade e do belo, pela qual a via racional se revela como meio disponente para alcançá-la. A expressão da ordem natural corresponde, portanto, a expressão da ordem racional. Lança-se então à natureza a claridade, sendo ela o fator de inteligibilidade e de criação poética. A ordem e lei dos fenômenos naturais, tida como constantes resultam na ordem formal, na métrica e na contenção. A racionalidade mais o rigor da constantia, isto é, das leis contínuas permanentes, consolidam no privilégio do decoro e do anti-sentimentalismo, e na harmonia das formas.

A contenção e a harmonia se projetam, por exemplo, no poema de Tomás Antônio Gonzaga, na lira II De Marília de Dirceu, na qual se faz necessário a junção dessas duas idéias. Além disso, a harmonia de Marília apresentada como o ideal amoroso incorporado, coabita em proporção com a simplicidade e a contenção com que o eu-lírico a descreve. Ou até mesmo a rigidez e permanência da natureza no soneto VIII de Cláudio Manuel da Costa, onde o único ente transitório são as reminiscências do eu-lírico, fugazes e maleáveis como o rio, diante duma natureza dura como uma rocha. Não obstante a natureza apresenta seu caráter transcendente: o homem se afasta da cidade para se relacionar com aquilo que a criou (a natureza), o qual é o fim único para o qual a sociedade retornará.

Com o passar dos séculos, a poesia de imitação ressurge no movimento parnasiano, retomando com força o ideário greco-romano. Em um ponto análogo ao arcadismo, os parnasianos recusaram o exagero do sentimentalismo romântico, fazendo prevalecer o objetivismo em relação à poesia, estabelecendo-a como um objeto acabado, no qual o poeta se destaca para observá-la, apartando-se, em geral, do objeto criado. A supremacia do modelo, das formas poéticas de prestígio, como dos temas gerais ligados à tradição clássica, a complexa seleção dos vocábulos e as afinidades patentes com o realismo e o naturalismo, demonstra a dimensão da corrente parnasiana como que em correspondência com caráter mimético neoclassicista.

A poesia de expressão, por sua vez, privilegia o âmbito emocional, deve enunciar sentimentos intensos, plenos de ardor, criando um espaço-tempo próprio, uma realidade própria. Na poesia de expressão o poeta cria o mundo, pois este não é acabado, fixo ou imutável; o ato poético se edifica pelas paixões, afirmando a existência numa comunicação íntima do poeta ao mundo externo. É dessa concepção de incompletude do mundo e da instigante ação poética que renova e interpreta a realidade, que os romancistas se utilizarão na criação da autonomia cultural e política em relação à metrópole.

Daí que se surge o sentimento de explorar aquilo que seria legítimo do Brasil: o “instinto” de nacionalidade. O sentimento, sobretudo poético, nos romancistas, era um meio de atuar politicamente. Essa nova concepção de mundo levou poetas como Gonçalves Dias a repensar a questão do índio e do nativismo, ainda que envolto dos preceitos éticos do cavalheirismo medieval. Por outro lado, a poesia de expressão consistia num complexo cultural, o qual era marcado pelas fases posteriores do Romantismo: o mal do século e a fase condoreira. A primeira via nas atribulações da alma e nas suas tensões emocionais e eróticas (o amor e morte, a volúpia, o desejo e o erotismo mórbido, a noite como cenário das aspirações amorosas, etc.) a matéria poética; a segunda não só consistia na tensão íntima ou drama, como as exteriorizou trazendo-lhes o espetáculo conflitivo entre Homem e sociedade. O que resultou no ponto alto de uma das grandes poesias críticas: O navio negreiro de Castro Alves.

Já a poesia de construção, por seu turno, se realiza como objeto complexo no fazer formal. Os contrastes, as tensões, a harmonia ou a dissonância dependem do “fazer-se”. Os componentes sonoros, e suas articulações, a semântica, as impressões imagéticas, são características que dizem pela maneira como são feitas. A poesia de construção apresenta, assim, uma auto-significação que só pode ser explicitada por ela mesma. Ademais, a poesia de construção parte do princípio de que o todo é pré-estabelecido sendo antecedente às partes, isto é, a idéia central submete as partes, se mostra erigida previamente à construção, de forma que as partes estejam ligadas a ela.

Uma das correntes vistas sob essa perspectiva é o simbolismo. Este se afirma pela transcendência e pela recusa do materialismo, se espelha pelo místico, pelo sonho e pela magia. E essa espiritualidade se dá pela operação das formas, de como a palavra (ente material) lança-nos ao abstrato, àquilo de oculto que pode ser percebido pela alma humana. A sugestão prepondera sobre a descrição objetiva parnasiana, a evocação do objeto não diz sobre ele mesmo, mas direciona ao mistério da alma, cujo acesso se opera pelo nevoeiro vago e impreciso do símbolo. Dessa imprecisão a adesão à musicalidade se torna, também, um apetrecho constitutivo, pois a musica não significa, ela é.

Por outro lado, o modernismo, culminado na Semana de Arte Moderna em 1922, criou as condições necessárias para um rompimento radical tanto dos modelos academicismo parnasiano, quanto do simbolismo. Os modernistas como Oswald de Andrade e Mário de Andrade reivindicavam plena liberdade no fazer literário, a qual se verifica no célebre início do Manifesto da Poesia Pau-Brasil: “A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos”. (Oswald de Andrade, manifesto da poesia Pau-Brasil).

Os fatos do mundo, de qualquer ordem, é matéria poética, o que significa que o estoque de idéia-geratriz ou idéias centrais que auxiliaram nas relações formais são mais amplos e permitem ao poeta uma maior liberdade poética, uma possibilidade de uma exploração mais abrangente, colocando o caráter dinâmico da linguagem no limiar de um processo complexo-semântico através de construções formais. Foi a partir do modernismo que uma consciência crítica de ruptura radical germinou. Sobre esse fenômeno afirma Alfredo Bosi em Ensaios da crítica literária:

O conhecimento do verso livre e os contatos com o cubismo e futurismo ajudaram a criação de uma nova sensibilidade e a produção de obras de inegável ruptura estética. Depois veio a consciência crítica, a laboriosa metalinguagem [..]. (Bosi, 2003, P.211).

A reinvindicação da liberdade poética resultou na consciência crítica da linguagem, atravessando os abismos complexos dos significados por uma ótica construtiva. É desse ponto construtivo que Oswald tem por base para a recusa dos antigos preceitos e afirmação de uma nova concepção de poesia: “O trabalho contra o detalhe naturalista – pela síntese; contra a morbidez romântica – pelo equilíbrio geômetra e pelo acabamento técnico; contra a cópia; pela invenção e pela surpresa”.(Oswald de Andrade, Manifesto da Poesia Pau-Brasil).

O dizer em poucas palavras ou em um rearranjo de possibilidades múltiplas, contra a descrição minuciosa dos parnasos e contra a cópia naturalista e realista. A possibilidade se torna, assim, a estrutura do fazer poético, tomando ares jurídicos como expõe Mário de Andrade de forma irreverente em Manifesto Antropófago: “Perguntei a um Homem o que era o direito. Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade”. (Mário de Andrade, Manifesto Antropófago). O trabalho material da linguagem, a variedade de disposições, as tensões, os desajustes, a harmonia, a dissonância; em suma o trabalho de liberdade artística dá ao poema a sua autonomia significativa, a sua dimensão semântica.


A fim de avaliar as concepções teóricas da poesia de construção, foram escolhidos os seguintes poemas para análise: O retrato de Cecília Meireles e o poema a onda de Manuel Bandeira, que são poemas que fundamentam sua dimensão significativa na construção formal.

Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
assim calmo, assim triste, assim magro;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?
(Poema de Cecília Meireles )

O Poema retrato orbita em torno da situação dramática percebida pelo eu-lírico: A transitoriedade da vida. Logo no primeiro verso o advérbio de negação e o pronome demonstrativo dão tonicidade à falta de percepção do eu-lírico ante as mudanças físicas. No segundo verso da primeira estrofe o advérbio assim tanto realça a dramaticidade como cria uma sonoridade melancólica, vagarosa, que se entrelaça com os adjetivos calmo, triste e magro. Além disso, a anáfora nem dá continuidade ao estado perplexo do eu-lírico na constatação dos olhos tão vazios e do lábio amargo, enquanto que a anáfora Eu repetida sempre no começo de cada estrofe da ênfase ao caráter particular, plenamente individual.

Há assim um esvaziamento dos sentidos e do vigor corporal, pois se perde a plenitude dos olhos, a doçura palatável dos lábios e a robustez das mãos, este último símbolo de força e luta pela vida. Novamente, no segundo verso da segunda estrofe há a partícula de realce tão, reaparecendo no segundo verso da última estrofe, dando o aspecto de perplexidade. Por fim, o coração outrora aberto e vivo, se oculta e se retrai, mostrando a mudança íntima, de natureza emocional.

A última estrofe se apresenta como afirmação plena da certeza transitória física e íntima. O segundo verso das três estrofes se dispostos respectivamente:

assim calmo, assim triste, assim magro
assim calmo, assim triste, assim magro
tão simples, tão certa, tão fácil

Revelam o processo de decadência, onde o espelho se mostra como uma chave para pequena compreensão da finitude, na qual a realidade sensível se mostra como impressão breve, efemeridade, que marcou sua juventude em um espelho agora recôndito e perdido.


O poema A onda de Manuel Bandeira expressa um vagar e um movimento característico da onda pelo jogo sonoro feito entre as palavras:

A ONDA
a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda.
aonde?
aonde?
a onda a onda
(Manuel Bandeira)

É através da isomorfia e do isófono que o poema se estrutura para gerar o movimento imagético e sonoro da onda. Com um estoque vocabular simples o jogo sonoro se resume nas quatro palavras onda, anda, ainda e aonde, criando assim uma intercalação de palavras ou de vogais para efeitos de vai-e-vem.

Esse efeito é reforçado também pela pauta acentual das palavras, cuja sílaba tônica é sempre paroxítona, erigindo um pico sonoro e uma decadência, representando o movimento da onda:

       On           an
A _/    \_da_/    \_da.

O justo efeito desse movimento é criar uma fluidez sonora, uma continuidade que ligo as quatro palavras num único elo semântico: a onda e seu movimento. Como as consoantes têm por traço peculiar a trava sonora ou obstrução, a predominância de vogais no poema resulta da sua cadência, do seu aspecto contínuo. Além disso, o eu-lírico lança uma pergunta aonde anda a onda? Estabelecendo uma personificação da onda, ela anda e anda pelas redes sonoras, isto é, a pergunta se faz como mero dispositivo formal para afirmação do ritmo sonoro.


Tanto no primeiro poema como no segundo, os elementos formais contribuem na constituição do conteúdo, ou seja, o fazer abre a possibilidade e influi sobre o dizer.  Portanto, o jogo de significado, a forma como eles se articulam, os esquemas sonoros, e a idéia central prévia etc. É o que fazem da poesia de construção, uma poesia autônoma, com uma dimensão de tensões, harmonias, desarranjos que emanam de si mesma.

BliBliografia:

BOSI, Alfredo. In: Céu, Inferno: Ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo: Duas cidades, ed.34, 2003.

ANDRADE, Oswald de. Manifesto da Poesia Pau-Brasil. Correio da Manhã, 18 de março de 1924.

ANDRADE, Mário de. Manifesto Antropófago. Revista de Antropofagia, Ano I, No.I, Maio de 1928)


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A noite.

À noite, cantos relentos, brandos
E desnudos, impalpáveis galhos
Que não desfolham; um fruto de
Plumas... semente de imensidão

Escuros olhos refletem o infindo inverso
À esfera fulgente, ovário dos pensamentos...
Escoam os corpúsculos astros do delírio,
Em cristais dos idílicos sentidos

Lúrida, resplandecentes, enlevos dormentes
Da solidão, dama dos segredos imortais...
-Vasto mundo despido, não me empeçais
Que eu transcorra por entre mosquiteiros de estrelas,
Cárcere de desejos, dando a mim à morte tanto anseio!

A morte, -ouvindo o ensejo - pressuroso vem a mim
Dar-me teu sabor, para cumprir-se desejo maior!
Dor, qual engano mortal, voraz exaspera, inflama “terra-máquina”!
E nos ledos turbilhões da putrefação, na sublimação da minha alma
Esvoaçam os cordéis atômicos dos desejos, pelo mar dos ares...

Infinidades dos mistérios
Manto das indagações humanas
Nos areais de tua imensidão
Remos perscrutam, elevam...
Qual nauta dos negros céus

(Evandro souza)

Quimera


Na aurora à chegada dos astros na noite
Estão todas lá, em janelas, em portas a olhar!
Não há de ser assaz vividas nem saciadas destas,
Mas estão nas portas, nas alvas janelas a espreitar
E passa, e passa... Frias a voar o acerbo vão que fecunda no olhar

Anelando o amor, que ora ver não passar
Não saem do feudo que lhes fora construído,
Pois ficam todas lá, em janelas, em portas a olhar!
E a ampulheta lhes dar devida forma de face cimentada;
No pequeno tocar, aquece, evapora, eleva-se, tendo os céus a tomar

Mas não há de ser discretas quando dos lábios robustos ventos ecoam
Neste ar caloroso, nesta vida arrebatadora, o ardor cintila
Em dura feição cristalina, e do mordaz  feudo não há vida, somente
Turbilhão de gélidas palavras, e ainda estão todas lá, nas portas
Nas janelas a espreitar, a viver a mocidade estéril do não-tentar

O que tanto olha? O que tanto espia?
Cá fora no mundo, muitos estrebucham aos pés da ganância
Esbanjam a felicidade num parecer rubro e fúnebre, livra-vos o corpo de madeira
O pecado. Mas digo-vos retificando-me: estão todos lá, a olhar!

(Evandro Souza)