terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Quimera


Na aurora à chegada dos astros na noite
Estão todas lá, em janelas, em portas a olhar!
Não há de ser assaz vividas nem saciadas destas,
Mas estão nas portas, nas alvas janelas a espreitar
E passa, e passa... Frias a voar o acerbo vão que fecunda no olhar

Anelando o amor, que ora ver não passar
Não saem do feudo que lhes fora construído,
Pois ficam todas lá, em janelas, em portas a olhar!
E a ampulheta lhes dar devida forma de face cimentada;
No pequeno tocar, aquece, evapora, eleva-se, tendo os céus a tomar

Mas não há de ser discretas quando dos lábios robustos ventos ecoam
Neste ar caloroso, nesta vida arrebatadora, o ardor cintila
Em dura feição cristalina, e do mordaz  feudo não há vida, somente
Turbilhão de gélidas palavras, e ainda estão todas lá, nas portas
Nas janelas a espreitar, a viver a mocidade estéril do não-tentar

O que tanto olha? O que tanto espia?
Cá fora no mundo, muitos estrebucham aos pés da ganância
Esbanjam a felicidade num parecer rubro e fúnebre, livra-vos o corpo de madeira
O pecado. Mas digo-vos retificando-me: estão todos lá, a olhar!

(Evandro Souza)

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