terça-feira, 6 de março de 2012

Cesário verde e o fogo como representação do amor.

Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!...

Em si tudo me atrai como um tesouro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de ouro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina...
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!...

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demônio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado, mi1ady, não se afoite,
Que hão de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos - as rainhas!


No poema  Deslumbramentos, de Cesário Verde, o eu-lírico contempla o objeto de sua paixão, Milardy, caracterizando-a pela brancura (como se vê no último verso da primeira estrofe) e pela rigidez, expresso pela comparação a que se faz da amada com o metal. Também se atribui ao objeto de contemplação uma série de virtudes que o eu-lírico constrói em sua descrição contemplativa. A amada é contida, plena de nobre tipo, onde tudo nela o atrai como expresso no primeiro verso da terceira estrofe, no qual a beleza da amada culmina na sua própria exclusividade, pois é comparada ao ouro, objeto de grande apreço.

Essa exclusividade vai ganhando mais força pela apreensão do eu-lírico à sua graça distinta.
Porém, seus dotes físicos, juntamente com as suas virtudes, assaz exaltadas, parece estabelecer uma antítese em relação à sua claridade, e por consequência, sua superioridade em que se atribui uma conotação mortífera que amedronta o eu-lírico. Por isso a comparação no último verso da quarta estrofe, com a morte, sendo, pois, alta e serena. A sua figura gigante e contida é o objeto tanto de contemplação quanto de assombro, ela é A grande dama fatal, firme e harmônica como a música no andar.

Desse conjunto de associações o componente fogo, que é o combustível para contemplação do eu-lírico, aparece na sexta estrofe constituído de dois entes antagônicos: Um arcanjo e um demônio, ambos o iluminam, isto é, o bem e o mal são as engrenagens que o constituem. O fogo ardente, pois, fere agudamente  como um florete (verso 3 da 6º estrofe) e afaga como um pelo de um regalo.

O fogo, no poema de Cesário verde é, portanto, a representação do amor, com todas as suas contradições nela contidas: dor e alento, medo e apreço, bem e mal. É então a partir do fogo que o eu-lírico mantém a tensão amorosa, ora contemplando-a ora descrevendo-a como uma mulher orgulhosa e cortante. É essa edificação conflitante a que o eu-lírico funde a sua chama, como expresso no verso  terceiro da oitava estrofe. Contudo, as duas últimas estrofes se estabelecem, especificamente, em uma relação “amor e ódio”, pois os povos humilhados pela noite, para vingança aguçam os punhais. A noite, no poema, é o tempo das desilusões amorosas que se converte em ódio e no desejo de desmantelamento do objeto de contemplação.

O eu-lírico não mais procura contemplá-la; ele avisa, anuncia, como se pode ver na última estrofe, nos dois últimos versos, que hei de ver errar, alucinadas, e arrastando em farrapos –as rainhas!  Isto é, o objeto que revela harmonia, claridade, beleza e orgulho, sucumbirá pelo seu jogo ardente, pela natureza conflitante da qual é constituída a chama, que é também o reflexo da brevidade das coisas do amor, de seus desencontros.