terça-feira, 12 de junho de 2012

Éden e Jardins da Divina Comédia. (1)


   Segue aqui uma tradução minha do artigo "Eden e Giardini della Divina Commedia" (Éden e jardins da Divina Comédia), de Gianni Venturi, publicado na revista "Le Lettere - La Rassegna della Letteratura italiana", N. 1-2, no ano de 1992. Caso haja alguns erros, sejam eles de tradução ou referências, estarei corrigindo-os assim que puder. Ao fim das traduções escreverei um texto com meu parecer sobre esse tema.

 
  Uma breve exposição se faz necessária para liberar o campo a uma série de indagações intrigantes que por muito tempo estimulam discussões neste campo, concluído sim, mas indubitavelmente atraente da origine do jardim. A tradição à qual também se refere à reflexão dantesca sobre o éden, punha este jardim, ou melhor, a ideia de jardim como veremos, denominado paraíso na origem da história do jardim; Mas como demonstrou Venturi Ferriolo¹, refletindo sobre as páginas Arnaldo Momigliano, é possível hoje reconhecer que o éden não é arquétipo do modelo de jardim e também da sua presença real, histórica, apesar de que este seja reconhecido como fundante, sendo o jardim das melhores histórias que traçam seu percurso. Segundo a pesquisa de Venturi Ferriolo, “O primeiro jardim não é o paraíso². A via endénica esquece voluntariamente uma tradição mediterrânea que da Suméria chega à Grécia clássica, passando pela própria Palestina e o seu mundo cananeu-fenício”. A Epopeia grega inclui certamente o conceito de paradeisos, mas no sentido de retidão irânica, portanto de um jardim entre jardins.

   Certamente a bela tese de Venturi Ferriolo serve para recolocar a ideia e a realidade do jardim dentro de uma ciência – a história das ideias – que pode e deve proceder de modo sincrônico, observando e comparando as fontes clássicas e bíblicas da mesma maneira, como escreve Arnaldo Momigliano, privilegiando, portanto, a historicidade de uma idéia e de uma realidade com a qual se confronta, se mensura e se articula. O paraíso, metáfora do jardim, não esgota todo o sentido do jardim; Com efeito, é insuficiente registrar só a linha que do Génese passa na tradição ocidental, englobando também a reminiscência clássica, como Dante nos ensina, ou como as comunidades monásticas indicaram na equação simbólica claustro, jardim e paraíso³. Todavia, não é possível, a quem queira indagar sobre o tema do éden na Commedia dantesca, prescindir da escritura tradicional do problema segundo a qual, para Dante, devedor de uma parte das exegeses bíblicas e de outra parte das fontes clássicas, o jardim do éden é o arquétipo. A sua identificação com o paraíso terrestre é indubitável, até quando se tinge as contribuições das outras epopeias clássicas. Para Dante, isto é, cada conceito de jardim, seja ele simbólico ou real, não pode desvincular-se do modelo edénico, daquela via edénica que é história do pecado e da salvação dentro de um lugar cujo nome se solidificará e se identificará com o éden. 


   Um espaço e tempo do éden, que se mensuram sobre a atemporalidade - O éden não alterado pelo acontecimento, a eternidade histórica do jardim, a garantia da sua sobrevivência até o juízo universal – e sobre uma espacialidade que para os comentadores do Génese,
sempre foi interpretada como essencialmente simbólica, quase nunca puramente geográfica: Um lugar que está mais para mente do que para uma extensão, mais uma idéia do que uma realidade dotada de conotações físicas. No entanto, padres e doutores da Igreja, escritores e poetas se esforçaram por investigar a geografia do lugar edénico, a situá-la num oriente mais longe das terras abitadas, a confundi-lo ou a mesclá-lo voluntariamente com Elísios e as Ilhas Beatificadas, com os paraísos persianos ou com as delícias corânicas. Ainda hoje – graças a grande bondade de antigos cavaleiros! – As pesquisas de Arturo Graf e de Edoardo Coli[4], a primeira de 1982, a segunda de 1897, permanecem insubstituíveis e têm um lugar de importância em uma obra como a de Le Goff[5] que, estudando a mentalidade da alta idade média o seu nascimento, ou melhor, a invenção do purgatório, a recoloca e a entrelaça com o paraíso terrestre dentro da fascinante hipótese do “terceiro lugar” que media e privilegia a espacialidade simbólica e a dialética antiga alto-baixo, esquerda-direita.  Entre o céu e o inferno se põe o purgatório, e um purgatório que, como Dante, tem sobre o cume o lugar feito propriamente para espécie humana, e um purgatório e paraíso terrestre são aceitáveis só dentro daquele espaço-tempo que intercorre entre o tempo terrestre e o escatológico. Todavia, o terceiro lugar – e bem tem razão Le Goff – não é perfeitamente simétrico os dois reinos opositivos do céu e inferno, mas é atraído pelo céu e o seu cume é, pois, uma figura do verdadeiro paraíso: lá, e só lá, o tempo terrestre e a natureza  se complementam na esperança escatológica; só no jardim tem início o encontro e desencontro com a beatitude. (Continua).
     
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[1] Massimo Venturi Ferriolo, Nel grembo dela vita. Le origini dela idea del giardino, Milano, Guerini, 1989.
[2] Op. cit.,p. 19.
[3] Cfr. Massimo Venturi Ferriolo, Il monaco, il giardino, la scrittura, in “Filosofia e Teologia”, III (1989), 3, pp. 613-621 ampliato in Il giardino del monaco, “Edizioni per la Conservazione”, 21/22, II (1990), pp. 433-76; Franco Cardini, Appunti sul giardino medievale, in Minima medievalia, Firenze, Arnaud, 1987, pp.369-409; Crispino Valeziano, Il “chiostro”, giardino bíblico-liturgico, in AA. VV., Il giardino come labirinto dela storia. Atti del convegno Internazionale, palermo 14-17 aprile 1984, Palermo, Centro studi di storia e Arte dei Giardini, s.d., PP 21-27; I Giardini dei monaci, a c. di Maria Adriana Giusti, Lucca, Maria Pacini Fazzi editore, 1991.
[4] Arturo Graf, Il mito del paradiso terrestre, in Miti, legende e supertizioni del Medio Evo (1892), Bologna, Forni, 1980, vol. I; Edoardo Coli, Il paradiso Terrestre dantesco, Firenze, Carnesecchi, 1897. Si veda ora, Giuseppe Tardiola, Il Paradiso Terrestre, in Atlante Fantastico del Medioevo, Roma, De Rubeis editore, 1990, pp. 27-46; Pasquale Sabbatino, L’Eden dela poesia. Saggi sulla “Divina Commedia”, Firenze, Olschki, 1991, specie il capitolo II, L’eden dela nuova poesia, pp. 45-124 e, sopratutto, di Cesare Segre, i primi quattro capitoli di Fuori del mondo. I modelli nella follia e nelle immagini dell’aldilà, Einaudi, Torino 1990.
[5] Jacques Le Goff, La nascita del purgatório, Torino, Einaudi, 1982.